Enviado Por:Andre Mancini

Vita nel Bel Paese

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Salve, Guga, Rafael e convidado(a) de Schrödinger.
Gostaria de dizer que sempre quis contar essa história para vocês, esse é meu clássico, meu épico que sempre conto nas festas e jantares, posso só imaginar a cara que meus netos vão fazer quando eu contar essa pela 10 vez.
Adoro vocês e esse programa é meu podcast preferido, mas vou começar logo, porque essa é longa:
(nota: estou escrevendo no teclado italiano e não disponho de todos acentos, mi dispiace)

 

Capítulo 1 – A notícia

O ano é 2018, tinha 23 anos e me chamo André (podem mudar meu nome para algum italiano ilustre).
Janeiro, volto para o escritório depois das férias de verão no interior de Santa Catarina e sou surpreendido pelo meu chefe que no primeiro dia fala:
– Oi, André, como foram as férias? Ah, a propósito demitimos o time de marketing da Itália e precisamos que você vá lá urgente pelos próximos dois meses cobrir até arrumarmos as coisas.
Olhei para câmera que sempre nos segue no escritório com um olhar perplecto. Não que eu não achasse uma oportunidade ótima, é só que:
– Senhor Chefe, mês que vem é minha formatura da faculdade.
– Ué, não da pra cancelar e pegar o reembolso? – Não conseguia acreditar na audácia da proposta.
– Sabe, até dá, mas assim em cima eles só devolvem um percentual do valor… – Eu disse bastante chateado, pois nesse momento eu sentia que das duas uma: ou eu perderia dinheiro ou a viagem, e tinha que escolher.
Eis que meu chefe me surpreende com a proposta:
– Hmm… Vamos fazer assim, você vai, ficar um mês e volta para formatura e retorna logo em seguida para o próximo mês lá, a gente consegue dar uma economizada nos gastos lá e cobrir a diferença.
Estava aí a solução, teria a oportunidade, só deveria “dar uma ajuda”. Peguei a política de viagem da empresa e comecei a fazer os orçamentos de viagem, hotel, carro alugado, tudo considerando 50% ou menos do budget para economizar a outra metade.
Eis que meu chefe vem com a seguinte frase:
– Ei! Sabe que eu consegui um hotel pra ti, a diária é só 45 euros, e com um mês lá podemos conseguir um preço ainda melhor, peguei essa dica com os eslovacos que vão para Itália.
Nossa empresa também tinha uma sede na Eslováquia, o que eu ainda não sabia, era que a política de viagem da ex-integrante da URSS previa que as pessoas recebessem o dinheiro para viagem e podiam guardar para si mesmos tudo que sobrasse, fazendo que alguns dormissem no carro ou em hotéis complemente abandonados e no meio do nada, a 4 cidades (+-40 minutos do trabalho). Fui parar na segunda opção, perfeita para alguns dias ou uma semana, eu ficaria um mês seguido em uma vila com 1200 habitantes no Piemonte (Guga, IBGEcast version comunas da Itália?), onde o restaurante mais perto ficava a 20 minutos de carro, no meio do inverno europeu.

 

Capítulo 2 – Vita nel bel Paese

Chegar lá foi o primeiro desafio, para economizar eu não aluguei um GPS e baixei o Maps para usar off-line. O problema foi que durante o trajeto meu celular parou de funcionar e bom, o Maps não traça rota sem sinal. Mas eu era um homem prevenido, além disso já tinha dirigido ali, sabia exatamente qual saída tinha que pegar e depois disso era fácil.
Eu não sabia.
Peguei a saída errada e caí em uma autoestrada de alta velocidade, onde você entra e só sai na próxima cidade, mais ou menos meia hora dali. Eu dirigia e não chegava o retorno e foi assim, o coração ia disparando quando percebi que não tinha ideia da onde estava. Na primeira estação de pedágio desci do carro e invadi o escritório de gestão da estrada, tentando conversar lá com uma mistura de português-inglês e gestos com as mãos, achava que os gestos seriam a principal parte que eles entenderiam. Depois de falar com um comitê de italianos, conseguiram me indicar as direções e cheguei no hotel. Nesse momento já havia saído do Brasil 26 horas atrás e estava morto de cansado, acabei indo dormir às 15 horas da tarde.
Durante minha estadia, nesse maravilhoso hotel, que vamos chamar de “esquilinho” (tradução do nome original), tive a oportunidade de descobrir uma curiosidade sobre a Itália, lá não existem motéis, mas sim hotéis no campo. Minhas noites eram sempre acompanhadas pela sinfonia da felação, fazendo com que eu absolutamente evitasse sair do quarto após as 22h.

 

Capítulo 3 – Bate e volta

Na quinta-feira de noite, véspera do meu voo na sexta para chegar sábado de manhã e me formar no sábado de noite, eu estava ansioso, muito ansioso, com toda correria, e semi-deprimido, após um mês sozinho no meio do nada (pelo menos comia pizza com vinho – uma heresia na Itália – dia sim e dia sim também pelo cartão corporativo – o que me fez ganhar 10kg só neste mês). Mencionei que não tinha nem alugado o terno ainda? Teria que fazer a prova na manhã da formatura. Chego no hotel depois do trabalho e a atendente me pergunta: Check-out amanhã às 9 horas? Que eu respondo com um: “exato!”, super empolgado por abandonar aquele lugar, e vou para meu quarto.

00:10 CET
Após arrumar minhas coisas decido colocar o despertador quando minha tela do celular brilha e aparece uma notificação vermelha.
SEU VOO FOI CANCELADO – GREVE DA AIR FRANCE.
Meu coração parou –  Seria eu, um autodenominado comunista, destruído pelos direitos trabalhistas? O pânico tomou conta. Comecei a ligar, mandar e-mail, Facebook, todos os canais da companhia francesa. Nada, greve completa, todos os voos cancelados. Logo abaixo uma nota “tente remarcar seu voo para daqui a três dias”, hahahaha. Três dias? Eu estaria de volta na Itália dali a três dias!!! Liguei para a agência que nos ajudava com as viagens, número de emergência. Foram horas até encontrar um contato da KLM no Wapp (empresa que parceria e unida à Air France) pela troca de mensagens instantâneas consegui explicar meu caso e imediatamente me mandaram uma nova passagem saindo do aeroporto mais próximo (1h30m da onde estava). O voo sairia às 6:40 da manhã – no ticket um recado “voo remarcado, remarcação não mais disponível”.

Era já 2:30. Novamente pânico, chegaria na hora do embarque no aeroporto para um voo internacional. Saí correndo do quarto com todas as malas, no corredor tento ter acesso a recepção. A porta estava trancada.
Trancada. Comecei a bater na porta e chamar “hey? Someone there? Help! Aiuto! Ajuda! Ciao”.
Batia,
Batia,
Comecei a gritar, e eis que:
NADA
Isso mesmo. Os funcionários do hotel simplesmente trancavam todos os hóspedes dentro do hotel, sem saída, foram embora meia-noite e não voltariam até as 7 da manhã do dia seguinte. Para melhorar não tinha mais ninguém no hotel (descobri pois saí correndo pelos corredores gritando “help” e batendo nas portas, só para encontrar ninguém por lá). Eu sozinho, em um lugar abandonado no meio do nada.
Pensando rápido e depois de chutar a porta algumas vezes sem ela abrir epicamente como acontecia nos filmes decidi sair pela saída de incêndio.
Fazia -6 graus e uma névoa desgraçada digna de Silent Hill, clássica de madrugadas no campo, olhei em volta para perceber que estava no pátio do hotel. Que para minha surpresa e felicidade do Dica De Eslovaco, estava trancado. Isso mesmo, o portal eletrônico estava fechado, não tinha uma saída do pátio/jardim onde eu me encontrava para pegar meu carro estacionado na rua (por sorte não tinha colocado no estacionamento dentro, se não era game over).
Sabe uma característica das saídas de incêndio? Elas não abrem por fora. Agora era 3 da manhã e eu me tranquei para fora do hotel com minhas coisas, um caminho sem volta, não conseguia voltar para dentro e pensar em algo o que fazer ou ao menos esperar até as 7 horas da manhã com aquecimento.
Não conseguia pular o muro pois ele tinha mais ou menos 2 metros e meio e era daquele estilo que são umas lanças de aço muito próximas mas sem nenhum lugar para se apoiar e escalar. Com muito esforço joguei minhas malas por cima do muro, “enfiando” uma das lanças no meu braço o que deixou um machucado bem feio, que demorou um bom tempo pra sarar.
Bom agora minhas malas estavam jogadas do lado de fora, e eu dentro, sem saber como sair. Eis que eu faço o que qualquer pessoa normal faz quando se encontra numa situação difícil.
Comecei a gritar e correr em círculos em volta do hotel (até hoje não entendo o que estava tentando conseguir).
Eis que encontro um banco de praça, que ficava de frente para um laguinho. Um daqueles bancos largos de ferro fundido. Arrastei ele até perto do portão com toda minha força, encostei ele forma a criar uma rampa bizarra que me levava até mais ou menos metade do muro, onde eu conseguiria alcançar o topo, me equilibrar entre as pontas de lança e me jogar para o outro lado do muro. Tudo bem na frente de uma câmera de segurança, sempre sonho se esse vídeo existe em algum lugar do mundo. Recuperei minhas malas jogadas e parti com o carro.

 

Epílogo

Daí em frente foi dirigir em velocidades não recomendadas, largar o carro sem conseguir fazer o check-out (o pagamento seria na hora do check-out) e pegar o voo. Chegando no Brasil eu era o assunto da galera, já que o hotel ligou para avisar que eu havia fugido sem pagar 1 mês de hospedagem. Claro que do aeroporto eu já havia mandado um e-mail para meu chefe fazer o pagamento com o cartão dele e cancelado meu próximo mês naquele hotel, voltaria dali a três dias, mas definitivamente não para o “esquilinho”.
A formatura foi incrível, e em três dias eu dormi 7 horas (com certeza menos tempo do que passei contanto essa história pra todo mundo lá) antes de pegar mais um voo e 25 horas de viagem. Obviamente o resultado foi uma gripe fortíssima e muitas histórias.

Espero que tenham gostado e não tenha ficado longa demais
Forte abraço!

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