Enviado Por:Fernanda

Rolê pela Cidade

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Olá meninos e possivelmente meninas, tudo bem com vocês?
Eu estou enviando uma história a qual queria compartilhar com vocês há algum tempo. Contudo, não havia surgido uma boa oportunidade para contá-la ainda. Por isso, quando ouvi que um dos próximos temas seriam aventura e, principalmente, decisões erradas, acreditei que este seria o momento perfeito para escrever. Ia usar os nomes e locais reais, mas, por receio de isso gerar algum problema para os envolvidos — e também por gostar quando vocês escolhem os nomes — optei por omitir as informações.

Eu estava no último ano do ensino médio e resolvi participar de uma olimpíada de filosofia que iria ocorrer em outra cidade. Talvez para vocês ou para algum dos possíveis convidados, essa decisão em si já deve soar como algo idiota. Entretanto, eu gostava muito dos professores que lecionavam a matéria em minha escola além de me interessar bastante pelas discussões que tínhamos. No fim das contas, foi até bem divertido: pude viver momentos memoráveis, como dormir com toda a equipe de alunos participantes (entre 20 e 30 pessoas) nas salas de aula de um colégio aleatório da cidade. O ocorrido que irei relatar, no entanto, é referente à nossa primeira noite por lá.

Como mencionei, o professor que estava conosco era bem legal e descontraído, uma pessoa com o típico espírito aventureiro. Uma curiosidade era que ele havia, na verdade, crescido naquela cidade e, portanto a conhecia bem. Sendo assim, logo em nossa primeira noite ele quis nos levar para um pequeno tour da madrugada que, para resumir, envolveu uma longa caminhada por ruas desertas com a clássica iluminação amarelada da noite, uma praça e alguns bares (observação: eu já tinha dezoito… mas não posso confirmar nada sobre os outros alunos). Eu sempre fui medrosa com “rolês aleatórios”, mas por estarmos em um grupo grande e na presença de alguém que conhecia bem a cidade, não me preocupei naquele momento, mesmo que a passagem por lugares estranhos tenha me deixado alerta.

Com o passar da noite, o cansaço oriundo da viagem cansativa de ônibus e da nossa já longa caminhada começou a surgir, não só em mim como em todos os presentes. Por esta razão, o professor decidiu que deveríamos voltar para o colégio onde estávamos “hospedados”. Contudo, alguns alunos (um pouco alterados por conta de substâncias lícitas… e talvez ilícitas, mas não confirmo) pediram ao professor que, no retorno, pudessem passar em frente a uma atração turística da cidade. Eles sabiam que não poderiam entrar lá em plena uma hora da madrugada, porém ainda queriam passar na frente “só pra ver”.
O professor, então, explicou que, apesar de não haver problema naquele caminho, ele seria consideravelmente mais demorado que o caminho tradicional. Contudo, mesmo com esta informação, a maioria dos alunos acabou optando por prosseguir pelo caminho mais longo, afinal era a primeira noite na cidade e todos queriam aproveitar ao máximo como adolescentes que eram. A única exceção foi uma garota — da qual eu não gostava muito — que alegou estar cansada e disse que gostaria de voltar logo. Com isso, dois meninos que eram amigos dela (eu diria meio capachos na realidade) se prontificaram a lhe fazer companhia pelo caminho mais curto.

Por conta do cansaço que me acometia, eu acabei resolvendo que iria com ela e os rapazes. Além de mim, outras duas ou três pessoas tomaram a mesma decisão estúpida. Pelo que me lembro uma delas era um amigo meu e a outra uma garota que eu havia conhecido no ônibus e havíamos nos dado mais ou menos bem.

“Mas qual é a decisão estúpida nisso tudo?” vocês devem estar se perguntando… Ou não.

A menina que quis voltar logo não conhecia o caminho. Por isso, ela resolveu procurar o caminho mais curto no Google Maps. E assim seguimos: caminho desconhecido, uma cidade desconhecida, 6 ou 7 adolescentes, 1 horas da madrugada.
O primeiro ponto que eu gostaria de destacar são as subidas. Muitas subidas. Não nos recordávamos de termos passado por muitas descidas na ida, mas a volta nos garantiu um tempo considerável andando e grande parte deste tempo em inclinações que massacravam ainda mais nossos joelhos — já exaustos de termos andado antes. Além disso, algumas coisas esquisitas apareciam no nosso caminho. Os meninos estavam preocupados especialmente com alguns carros estacionados com pessoas dentro que apenas ficavam paradas, sem nada fazer no veículo que, diga-se de passagem, estava desligado. Meu amigo também disse que viu uma casa com a porta aberta onde uma mulher cortava o cabelo de uma pessoa e ambos carregavam expressões estranhas. Rostos emburrados e olhares fixos.

Estas coisas pode não parecer nada narrando assim, porém gostaria de ressaltar que era uma da manhã, estava tudo escuro e as ruas vazias. Além disso, eu sou e sempre fui muito medrosa. Não tenho muitas histórias além desta para contar porque não fui uma adolescente muito aventureira. Ou seja, cada micro situação que surgia me ocasionava uma onda de ansiedade e medo.
Nossa caminhada nos levou para, adivinhem, mais uma subida. Só que, desta vez, o que encontramos não eram muros altos e infinitos, mas casas humildes que se amontoavam umas sobre as outras. Aquele lugar aparentava ser mais perigoso, além de encontrarmos algumas pessoas por ali, nos encarando como os forasteiros que éramos. Naquele ponto do caminho, o que havia em seguida era uma descida — finalmente! Por isso continuamos a andar, iniciando a descida e…
Uma garrafa quebrou.

Talvez essa garrafa não tenha sido realmente nada. O vento pode ter soprado, um gato pode ter empurrado, uma senhorinha de mãos já trêmulas pode ter deixado cair sem querer. A hipótese que acho mais plausível, no entanto, é que o próprio Tinhoso, o Sinteco Gelado, o Só Uma Gripezinha, o Docinho De Festa Que Tem Fruta Dentro; jogou no chão para ver o que acontecia. E o que aconteceu foi que aqueles adolescentes medrosos, inseguros sobre o caminho que trilhavam e já nutrindo um mal pressentimento sobre aquele lugar, correram.

Desesperadamente.

Corremos ladeira abaixo (literalmente) em um pânico um tanto aleatório. No meu caso, meu desespero era ainda maior pois nunca fui uma pessoa muito atlética e muito menos veloz. Ou seja, por mais que não tivesse realmente ficado para trás (por estar correndo pela minha vida), eu estava bem mais atrás em relação aos outros. O único pensamento que me vinha em mente era: “é isso, esse vai ser meu fim. Sempre soube que eu seria a primeira a morrer no filme de terror”.

Mas o Tinhoso, o Presente De Pacote Mole Que Você Sabe Que É Roupa, o Ônibus Lotado, o Ônibus Lotado Passando No Meio Do Tiroteio (experiência própria); não me deixaria morrer. Não ainda. Faltava o susto final.

Isso mesmo, porque ainda não estávamos assustados o suficiente. Aquela descida pela qual passamos correndo ia dar, justamente, em um cemitério. Quando chegamos lá, o garoto que era meu amigo disse, na mesma hora, para voltarmos. Eu respondi que ele estava louco, afinal havíamos acabado de vir correndo de lá, como iríamos simplesmente voltar e nos deparar com o que quer que tenha sido que quebrou aquela garrafa? Para além disso, mesmo que não fosse nada perigoso, os moradores daquele lugar podiam ficar desconfiados uma vez que éramos um bando de jovens que havia corrido na rua durante a madrugada. Assim, sob muitos protestos, seguimos em frente. Uma da manhã. Pelo cemitério.

Tentarei explicar, da melhor forma que conseguir, como se dava a geografia deste ambiente. Mentalizem uma rua, continuação do caminho onde estávamos. Olhando para a esquerda era possível visualizar um muro branco alto e, por trás, diversas lápides, estátuas e outras pequenas construções. Do lado direito, a mesma coisa. Em outras palavras, estávamos passando pelo meio do cemitério. Mais uma vez era uma rua bastante longa e a cada segundo nosso medo ia crescendo. No meu caso, reparei que existiam muitas (MUITAS) estátuas de santos e anjos mal iluminadas. Me recordo, até hoje, de uma em particular que se tratava de uma figura encapuzada cujo rosto não era visível. Parecia, de fato, a própria morte apenas aguardando que ficássemos distraídos. Ou será que já estávamos mortos e aquilo era nosso purgatório, vagando eternamente em um cemitério sem fim?

A resposta foi “não” porque depois de alguns minutos, desembocamos em uma rua mais familiar, parte do caminho que havíamos feito mais cedo, na nossa ida para “o rolê”. Podendo finalmente respirar com mais calma, continuamos caminhando, encontrando mais carros desligados com pessoas paradas dentro — o que deixava os garotos bem atentos enquanto eu nem prestava atenção, só querendo me jogar no colchonete, mais fino do que qualquer coisa, que minha mãe havia me dado para levar.

Enfim chegamos no colégio, entramos e logo nos preparamos para dormir. O professor chegou não muito tempo depois com o resto dos alunos, para os quais logo contamos nossa pequena, porém aterrorizante não-história.

Obrigada a vocês pelo ótimo podcast e até uma próxima… Ou não, pois não sei se tenho mais alguma história tão boa que seja digna do podcast. Quando a pandemia acabar prometo que irei me esforçar para entrar em mais furadas por vocês.

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