Enviado Por:Maria Helena

Racine, Wisconsin

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Olá queridos Rafael e Guga! Me chamo Maria Helena, sou de Ponta Grossa (uma cidade muito interessante, Guga, assim como várias do Paraná), e hoje moro em Curitiba. Não me importo se mantiverem os nomes originais, mas com os criados por vocês, as histórias sempre ficam muito melhores. Então, fiquem à vontade na decisão.

A minha “história de aventura” se passa em Racine, no Wisconsin. Em 2008, eu e Bruna éramos duas jovens universitárias de 20 anos sonhadoras e facilmente enganáveis. Tínhamos a falsa crença de que faturaríamos uma grana e, de quebra, aprenderíamos inglês, trabalhando por módicos três meses nos Estados Unidos. Para isso, não medimos esforços, nem gastamos neurônios. Sim, porque uma simples busca no Google nos alertaria sobre a furada que estávamos nos metendo ao mudar para uma cidade minúscula, com temperaturas mínimas, sem nenhuma atração cultural e com difícil acesso por transporte público. Mas não o fizemos.

Assim que chegamos no apartamento alugado pela agência de intercâmbio do Brasil, demos de cara com nosso roommate, Jason, um jamaicano 2 por 2, cuja existência desconhecíamos. Até então, acreditávamos que moraríamos sozinhas. Não preciso dizer que na primeira noite, ignorantes e preconceituosas, dormimos de porta trancada e de calça jeans. Mesmo com as reclamações incessantes dos nossos pais, a agência alegava que não tínhamos outro lugar para morar. Era isso ou nos virávamos por conta própria. Primeiro revés.

Racine, em dezembro, era linda como o Pergunta No Final Da Aula. O cenário constante e patético: branco ou cinza, gelo ou chuva. Mas não para duas devotas do American Dream. O primeiro passeio na neve foi memorável. Comprar as primeiras roupas resistentes ao frio intenso, incrível. O primeiro snow angel, fantástico.
Aí vieram as escalas escravizantes no trabalho, o chefe escrotamente ruim, a falta de lazer e de dinheiro e a dificuldade de comunicação com nossos pais. Estranho pensar que em 2008, logo ali, não tínhamos smartphones e escrevíamos e-mails semanalmente, de um computador emprestado, para a nossa família, não é mesmo?

Trabalhávamos muito, não tínhamos internet nem televisão em casa, e escurecia às 16h. Caminhávamos por 30 minutos na neve às 6h da manhã para chegar ao trabalho e economizar alguns cents da passagem de ônibus. Dormíamos em colchões infláveis, não podíamos alugar carro, nem beber. Nos faltava idade e dinheiro.

Pelo menos, aos poucos, fomos aprendendo a simpatizar com Jason. Ele achava incrível nossa habilidade de passar delineador nos olhos, sem nos furar. E toda conversa, era motivo para ele nos contar que “in Jamaica, everything is different. They shoot u”. Tinha deixado esposa e filhas lá para ganhar a vida na América, onde, para ele, estava o paraíso. “They shoot u” e melodias de Céline Dion eram o repertório diário de Jason. A simplicidade e a história de sofrimento do nosso roomie nos ajudaram a ter outra perspectiva sobre o que estávamos vivendo.

Mas simpatia e antipatia são vizinhas ou, até mesmo, roommates. Jason, Bruna e eu trabalhávamos no mesmo lugar – um hotel luxuoso (para os parâmetros de Racine), onde alternávamos entre lavanderia e arrumação dos quartos. Nossos dias de folga eram quase sempre distintos, o que impedia que eu e Bruna viajássemos juntas para algum lugar à procura de entretenimento. Chicago, a maior cidade mais próxima, ficava a duas horas de trem, que só parava em Racine uma vez ao dia.
Assim, nas folgas, nos restava passar o dia trancadas em casa, limpando, ou fazer compras no único Walmart da cidade. Mas Jason gostava mesmo de queimar, digo, cozinhar. “Near, far, wherever u are” e um ovo tostado. “Baby, baby, baby”, chamuscou o pão, provavelmente, se perguntando “can beauty come out of ashes?” Assim, o alarme de incêndio do prédio disparou de novo. Já estávamos tão acostumadas, que sequer saímos do quarto quando o sonido vibrou, pela quarta vez, em menos de dez dias. A primeira vez foi por minha conta, mas essa parte a gente costuma não contar.

O dia seguinte, no entanto, não começou com tanta habitualidade. Antes das 8h, ouvimos batidas fortes na porta do apartamento. Não atendemos. Nossa estratégia, como boas adolescentes, era fingir que não tínhamos ouvido os ruídos e manter nosso descanso. Mas a intensidade dos golpes aumentou e logo escutamos um grito contundente e um alerta: “Police, open up”. Pulamos da cama.
As duas moçoilas desesperadas mal entendiam o que o policial dizia. Algo sobre os vizinhos reclamarem ou estarmos ilegais no país. Enquanto uma se ocupava dos policiais, a outra ligava para a agência de intercâmbio. Confesso que não me lembro de onde tiramos o celular, provavelmente emprestamos de algum vizinho, já que alguns curiosos se aproximavam da nossa porta. Depois de alguns minutos, que pareceram horas, de calafrios e muito medo, encontramos nossos passaportes e explicamos que éramos duas jovens brasileiras, trabalhadoras e visivelmente desinformadas. Então um dos policiais nos explicou que nossa moradia estava irregular. O contrato de locação fora firmado com a agência de intercâmbio, a qual nos repassava os custos. Ou seja, se tratava de sublocação, prática proibida no estado. Devido aos constantes disparos do alarme de incêndio, um dos vizinhos denunciou à polícia, que decidiu checar a situação.
Entre conversa, choro e tentativas malsucedidas de obter uma solução da agência, os policiais notaram nossa inocência, que beirava à condolência. Nesse momento, eles já estavam no nosso quarto, onde nos ajudaram a procurar os documentos. Já haviam notado a nossa péssima situação e se questionavam os motivos pelos quais estávamos naquele fim de mundo.
Por fim, se convenceram de que não sabíamos da irregularidade e de que não tínhamos qualquer possibilidade de resolver aquilo. Mas precisávamos sair imediatamente. Então, nos perguntaram se tínhamos para onde ir. Não tínhamos. Só o que poderíamos fazer era recorrer ao hotel. Então, nos perguntaram se tínhamos como ir até lá. Lembrem-se: uma cidade minúscula, afundada na neve, com transporte público horrível. Em Racine não havia taxi!
Bruna e eu estávamos tão arrasadas e aflitas, que conquistamos a piedade dos policiais. Eles nos ofereceram uma carona para o hotel. Sim, passeamos pela cidade de viatura policial. A situação era tão trágica, que um dos policiais nos perguntou se queríamos tirar foto, para mostrar no Brasil o dia em que andamos de camburão. Nós estávamos abaladas demais para encontrar a comédia naquilo. Não fizemos a foto.

Depois do triste evento, fomos acolhidas no hotel, que nos hospedou na faixa por alguns dias. Em seguida, a agência encontrou outro apartamento, muito mais distante, com um quarto, que novamente teríamos que compartilhar com Jason. A essa altura, já sabíamos que ele falava para todo mundo no hotel que “nos comeria”. Ali acabava a simpatia.
Felizmente, uma família mexicana, cuja mãe trabalhava no hotel, nos acolheu. Moramos com eles por quase dois meses. Eles foram responsáveis por termos excelentes lembranças do período do intercâmbio.

Dessa história derivam várias, como limpar merda de hóspedes, trabalhar na área externa do hotel, só de camiseta, em temperatura de -27°C, ou turistar por Nova Iorque com menos de 10 dólares. Mas as deixo para outra oportunidade.

Sou mega fã do seu podcast. As histórias me acompanham há anos, inclusive madrugadas adentro, algumas vezes, enquanto amamentava minhas filhas.
Obrigada pelo seu trabalho!
Um beijo.

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