HISTÓRIAS DE PROFESSORES – Mais Histórias 2- Gugacast – S05E13

By abril 21, 2020Mais Histórias

Encrenca em Trolla

História 6
 

Olá, Guga, Rafael e Caio (?), peço que não divulguem meu nome, tendo em vista que a história que irei contar não fará bem à imagem dos envolvidos, e nem da instituição envolvida. Podem me chamar de Juíza Mirandinha (ou qualquer outro personagem fictício que a criatividade de vocês desejar).
Juíza Mirandinha está excelente para mim.

No final de 2008 terminei o curso de direito e já saí empregado como professor na universidade em que cursei a graduação. Durante a faculdade, eu me dediquei muito e procurei construir meu conhecimento da maneira mais completa possível, aproveitando a chance de cursar o tão sonhado terceiro grau. Me tornei monitor e todas as turmas com as quais trabalhei gostavam da minha forma de apresentar o conteúdo. Essa a razão de a Universidade já ter oferecido um contrato de trabalho imediato a um neófito (talvez o fato de o salário ser muito inferior ao pago para os professores realmente feras, com titulação suficiente para cobrirem uma parede inteira, também tenha sido um fator). Enfim, iniciei o ano de 2009 em êxtase. Estava formado e empregado. Melhor ainda. Empregado em uma universidade de prestígio (não falarei qual, para evitar que a história seja reconhecida). E iria lecionar a minha matéria preferida.
Como num filme, o ouvinte traçou uma histórias muito feliz. Só pode dar errado.

Como eu era muito novo (tinha 23 anos), tinha que ir dar aulas de terno, pois se aparecesse de jeans e camiseta os alunos iam embora acreditando que se tratava de trote ou de substituto enviado para cobrir a ausência de professor faltante. Esse fato nenhuma relevância tem com a história, só quis contar.
Hum…parabéns?

De qualquer maneira, o primeiro semestre em que eu era professor transcorreu muito bem, fiz bons vínculos com minhas turmas, era bem tratado pelos demais professores (me viam como um chaveirinho da instituição) e estava muito feliz, muito mesmo.
Chegando ao final do semestre, apenas 11 alunos ficaram de “exame”, número considerado muito baixo perto da média dos outros professores (se o resultado demonstra que eu era um excelente professor ou um bobão que passava a mão na cabeça de todo mundo é debatível, mas eu prefiro acreditar na primeira opção).  
Estou com você, Juíza Mirandinha.

No dia de aplicar a “prova final”, todos os 11 compareceram. Distribui as provas e sentei em meu lugar, pensando na morte da bezerra. Conforme os alunos entregavam as provas e saiam, como estava muito entediado, achei que seria uma boa ideia já começar a corrigir os testes devolvidos.
Muito compenetrado na correção, me divertindo com as respostas apresentadas, escutei uma voz feminina dizendo “professor, estou com uma dúvida”. Sem levantar a cabeça, ainda compenetrado na correção, soltei o automático “a interpretação faz parte da prova”. A voz, imediatamente, retrucou “sério, estou com uma dúvida”.
Então, levantei a cabeça e meu coração congelou. A sala estava completamente vazia, só tinha essa aluna sentada na primeira fileira de cadeiras, a minha direita, mais ou menos uns três metros da minha mesa. Ela estava de blusa “solta”, com o corpo inclinado sobre a cadeira, e um seio aparecendo pelo espaço da blusa. Estava, também, de saia curta, com as pernas abertas e sem calcinha e me olhava com o sorriso mais descarado possível.
Eita porraaaa. E agora?

Eu pensava um milhão de coisas ao mesmo tempo. “Seu juninho, como deixou todos os alunos saírem e ficou só com uma aluna em sala de aula” ou “meu Deus, estou sofrendo assedio sexual”, mas o cérebro de jurista “o professor é você, não pode ser vítima de assédio sexual”, “ela vai alegar que você a assediou”, “irei perder meu emprego, cairei em desgraça e nunca mais vou conseguir trabalho”, “minha namorada vai me deixar”, “vou morrer maldito e na solidão”.
Enquanto minha mente parecia que iria explodir, não sei como, me levantei calmamente e me dirigi até a carteira da aluna. Peguei sua prova, fingi que estava olhado as respostas que ela havia dado e perguntei “quanto você precisava para ser aprovada?” Ela respondeu que precisava de sete. Então, respondi que pelo que havia visto das respostas ela havia conseguido essa nota e estava liberada, ao que ela sorriu mais ainda e respondeu “obrigado, professor querido”, levantou-se e foi embora.
Não sei qual era o certo na situação, mas ele até que não se saiu mal.

Eu fui para casa arrasado, não sabia como reportar a situação. Não sabia nem mesmo se a forma como lidei com a situação havia sido a mais adequada (hoje sei que não, mas é muito fácil olhar para o passado, com a experiência de anos, e criticar a decisão tomada em uma fração de segundo por um moleque que achava que era professor).
O semestre acabou e chegaram as reuniões de departamento para planejar a abordagem dos temas a serem tratados no próximo semestre. Numa dessas reuniões, conversei com um colega e comentei o acontecido, ao que ele me aconselhou a fazer uma consulta informal com o coordenador, só para ver qual era a opinião dele.
Seguindo o conselho, procurei o coordenador do curso e contei o que havia acontecido. Até hoje tremo de raiva ao lembrar de sua resposta “relaxa, Juíza Mirandinha, essa aluna já fez isso com outros professores, ela é assim mesmo”.
O QUÊ?
  “Se ela já fez isso com outros professores, por que a Universidade não adotou alguma providência ou, ao menos, não alertou os novos professores dela?” Só pensei, obviamente, mas na minha imaturidade não tive coragem de dizer isso para o coordenador.
Os anos passaram e hoje não sou mais professor, tendo ingressado na carreira pública (inclusive, se um dia fizerem um temático sobre concurso público escrevo a história de como quase fui eliminado, e preso, no concurso em que consegui aprovação para o cargo que ocupo).
Escreve aí, cara. Sempre escrevam histórias boas.

Apesar da história ser triste, acho que meu saldo como professor foi muito positivo (consegui ser paraninfo de uma turma e, também, nome de turma de outra) e tenho saudades dos anos em que fui professor e acreditava no direito, transmitindo sua teoria com muita paixão e carinho para meus alunos. Inclusive, ainda guardo a esperança de conseguir retornar ao ambiente acadêmico um dia, quando deixar o interior do País e for para uma cidade que tenha universidade, para tentar reacender o amor pelo direito que, infelizmente, vai morrendo quando se ingressa no sistema de justiça.
Obrigado por escutarem minha história e por fazerem esse programa maravilhoso que agita minhas sextas interioranas.
Um grande abraço.
Um abrás! Pro interior desse Brasil!
 

Missão em Moraina

  Olá, Guga e Rafael! Bom dia, boa tarde e boa noite! Me chamo Tiago Campos e sou professor de História há 12 anos. Moro em São Paulo, Capital e tenho 30 anos. Venho hoje contar uma história / experiência bastante interessante que tive ao levar um grupo de alunos para visitar a Capital Federal alguns anos atrás. Fiquem à vontade para mudar os nomes, isso sempre rende ótimas risadas. Capítulo 01: Antecedentes
Bom…não sei até que ponto vocês estão familiarizados com a vida de professor. É uma vida dura. Temos, é claro, nossas recompensas com os bons alunos, é gratificante ver o crescimento deles, vê-los alçarem vôos incríveis. Mas, como eu disse, é uma vida dura. Costumo dizer que é agridoce.
É muito comum que professores de escolas particulares tenham que trabalhar em várias escolas, talvez em várias cidades. Eu já tive a minha cota de Bandeirante: até hoje trabalhei em São Paulo, São Bernardo do Campo, São José dos Campos, Guarulhos, Mogi das Cruzes, São Sebastião, Taubaté, Pindamonhangaba, Paraibana,  
Gustavo, em que outros municípios você acha que o Thiago pode ter trabalhado?  
algumas vezes em mais de uma delas no mesmo dia.
Em certos tipos de escola – os que eu estou acostumado a trabalhar – existe uma grande cobrança com relação a resultados em Vestibulares e ENEM, o que faz com que tenhamos que estudar cada vez mais e não só a matéria em si, mas as técnicas de resolução de questões, taxonomias e estatísticas para preparar bem os estudantes. Além disso, desconheço um professor ou professora que consigam curtir tranquilo um feriado, fim de semana ou férias, e tem escola que força a barra: lembra aquelas festas juninas que vocês como alunos gostavam de ir? Pois é…na maioria das vezes os seus professores estavam lá trabalhando de graça. Como eu disse, é agridoce.
Poxa, cara, o que posso dizer? Obrigado!
  Todas essas questões contraditórias me levaram sempre a buscar a perfeição acadêmica, um relacionamento bacana com os alunos e, mais recentemente, a formação em Direito e especialização em Direito do Trabalho focado em professores de Educação Básica, mas isso é uma outra história. Talvez eu esteja sendo meio prolixo, hehe.
Bom, o contexto: eu sempre achei fascinante levar os alunos para fora da sala de aula e fazer o ambiente histórico ensinar com sensações o que eu passo anos tentando descrever com palavras. Nos idos de 2016, comecei a planejar clubes de debates, projetos de simulações de tribunais e comitês ONU e, talvez minha predileta, excursões para Brasília. Entra em cena aqui o palco de nossa História…
Que maneiro, cara. Você é um herói
Capítulo 02: Capitanias Hereditárias
Montar um projeto de excursão (ou Saída Pedagógica, como os eufemismos hoje mandam) é um baita desafio. Temos que pensar em uma empresa para operar a viagem que tenha responsabilidade, seguros contra acidente, plano de saúde para a viagem, autorização dos responsáveis com todas as formalidades (e acreditem, são muitas), justificativas pedagógicas, organização de quartos para evitar ‘sonambulismos’ (se é que me entendem) e, claro, tudo em suaves prestações que caibam nos bolsos dos papais. Eu sempre tive um fascínio imenso por Brasília. Uma parte da minha família paterna saiu da roça , em Pintos Negreiros /MG (não sei se isso ainda existe)
Gustavo, por favor, eu não quero saber quais são as cidades com populações menores que Pintos Negreiros/MG
  e virou Candanga, foi construir a cidade.
Que eu saiba, um tio meu que era semianalfabeto foi com 13 anos, morou naquelas choupanas, trabalhou de peão e depois de comer o pão que o ‘Prô, mas não dá pra considerar?’ amassou, virou Juiz Federal. Enfim, sempre quis conhecer a cidade.
Lá vou então montar o bendito projeto: conhecer empresas, buscar as informações, antecipar todas as perguntas toscas e non sense que os coordenadores fazem, aprender tudo que podia sobre o roteiro, montar o roteiro e, o mais complicado, vender a viagem para as escolas em que trabalhava.
Projeto pronto, eu precisava de pelo menos 10 alunos para viabilizar a viagem. Sairíamos do Aeroporto de Guarulhos em uma Quinta Feira bem cedo, daí o primeiro passo era o Congresso Nacional, com sorte assistir uma sessão. O roteiro era incrível: Congresso, Planalto, STF, um belo caminhar na Praça dos 3 Poderes e no Espaço Lúcio Costa; Polícia Federal, Quartel General do Exército, STJ, Torre de TV, Memorial JK, Museu da Memória Candanga, Catedral de Brasília, Santuário Dom Bosco, Super Quadra (fomos em uma aleatória, mas eu jurei que era a do Renato Russo e como falei sério, a molecada acreditou kkk), Lago Paranoá..Devo ter esquecido alguma coisa, mas foi um roteiro bem intenso.
Ótimo roteiro!
Vender para as escolas…que dificuldade! Uma delas me disse que não queria ter nada a ver com a excursão, eu não poderia nem fazer um bilhete com o logo da escola, nem a escola receberia pagamentos. Lá vou eu pedir pra empresa fazer um ambiente online no seu site para receber os pagamentos. Botam fé que depois que a viagem deu certo, quiseram saber quanto do pagamento que os alunos fizeram iria pra escola? Isso porque eu, evidentemente, não ganhei um tostão na viagem. Afinal, era para enriquecer o conhecimento dos alunos, não a minha rubra conta bancária…
Eu divulguei em tudo que era classe, falava do projeto com paixão. No fim das contas: 6 alunos em uma escola pagaram, 7 na outra. Precisava de 10 para viabilizar a viagem…
Aí me deu um estalo: eu poderia juntar as duas escolas e fazer a viagem! Consegui convencer a diretoria das duas e a empresa a fazer esse rolê: uma escola ficava em Mogi, a outra em Guarulhos.
Cara, você é maluco.
Lembram quando Tomé de Souza, em 1530, veio para o então Brasil Colônia com um regimento do rei D João III iniciar a colonização efetiva, logo após o fracasso do Sistema de Capitanias, à exceção de Pernambuco e São Vicente, pondo fim ao Período Pré Colonial? Me senti como o próprio, com a missão de transportar esses colonos e dar a eles uma baita viagem maneira.
Lembro, claro. Foi o mesmo ano que a Arquiduquesa de Savoy, Margarete da Áustria, morreu, deixando o Governo dos Habsburgos.
Capítulo 03: Navegar é preciso… Quinta-feira, 4h30 da manhã, aquele sol cinza brilha fosco em São Paulo. Estou de Terno, mala e mochila, esperando o busão que fretei para me levar a Mogi. De lá, para Guarulhos. Junto os alunos, vou pro Aeroporto, vôo as 12h, chegamos até as 14h em Brasília, visita ao Congresso e deu tudo certo, certo? Rá! Neste momento o ‘mas estava no calendário’, o ‘tem o feriado para corrigir’, o ‘arredonda mais 5 pontinhos’ , o ‘me dá uma chance para te mostrar que ano que vem serei um novo homem’ começa a tecer sua trama… Chego em Mogi. Vou para a Sala dos Professores (pra vocês pode parecer mística, mas é só uma sala feia com um monte de armarinhos que não cabem nada e o nome de cada professor). O combinado era sair de Mogi as 7h30 com os alunos e encontrar os demais na outra escola, de Guarulhos. A diretora me encontra, elogia minhas doutas vestes sociais e me informa que eu deveria dar a primeira aula, senão os pais reclamariam. Pequenos poderes!
Dei a primeira aula para uma turma que parecia mais entretida com um campeonato de bocejos…
Chegando em Guarulhos, tudo certo. Embarco a turma, encontro minha monitora super parceira Sprite (sim, este é o apelido dela) e vamos pro Aeroporto. O vôo atrasou mais de 1h para decolar. Mas muitos dos meus alunos ali (entre 14 e 18 anos) nunca tinham andado de avião. Então, a experiência valeu super à pena. Chegamos atrasados em Brasília, perdemos o passeio no Congresso. Tudo bem, eu reagendaria para o dia seguinte. Uma cena eu nunca vou me esquecer na vida: passar de ônibus pelo Eixo Monumental, ver o Congresso se aproximando, aquele pôr do sol e o Congresso iluminado de Rosa (viajamos no mês de Outubro e estava rolando alguma ação de conscientização). Pedi ao motorista que parasse o ônibus, descemos todos e ficamos quase 1h ali, só contemplando o Congresso, a Praça dos 3 Poderes, as Embaixadas, o Itamaraty…
 
Uma coisa é verdade: você SABE apreciar Brasília  
Capítulo 04: Sor, Fudeu! Chegamos na Quinta de tardezinha, fomos para o hotel e dormimos. Sexta-feira foi um dia intenso, muitos passeios e os alunos estavam adorando, a turma era ótima!
Nosso hotel ficava em Taguatinga, por questões de custo.
Acontece que Brasília é uma cidade que morre as 19h, ainda mais pra quem está acostumado a São Paulo. Então, ao fim do dia de passeio, voltamos para o hotel em Taguatinga e fomos descansar.
Eu e a Sprite levamos os alunos para a cobertura do hotel (por favor: tudo que eu falar sobre o hotel, imaginem com 70% a menos de glamour) deixamos os alunos brincando na piscina com uma outra monitora, que passaria a noite fazendo rondas e impedindo os ‘sonambulismos’. Quando deu umas 21h30, todos estavam na piscina e arredores descansando e se divertindo, eu e Sprite descemos para jantar. Outra coisa sobre professores em excursão: a gente descansa se der, come se der, toma banho se der, a prioridade é os alunos estarem bem e curtindo.
Estamos eu e Sprite desfrutando de uma bela refeição: Restodonté cálido com suco de amarelo. De repente, recebo uma ligação no meu celular, era Maurício, um dos alunos, me dizendo em tom alarmante e quase aos berros: “Sor, Fudeu! O Chris bateu a cabeça na piscina e tá sangrando muito!”
 
Ah, não!
Eu e Sprite não tivemos a chance de concluir nossa degustação da iguaria gélida do hotel, ela sai correndo, eu vou atrás e subimos até a cobertura.
Encontramos a monitora que deveria estar atenta a tudo super entretida com um livro qualquer, sem saber de nada. Vamos para o quarto dos dois meninos e… Capítulo 05: Chegar na Índia foi fácil…
Chegamos no quarto, eu tinha a chave-mestra e fui abrindo sem cerimônia. Encontro Maurício deitado na cama de cueca, assistindo anime, com a maior calma do mundo, nem parecia que 30 segundos atrás tinha me ligado falando o que falou. No banheiro, Chris lavava um ferimento no nariz. Depois dos vocativos e advertências de praxe, me explicaram que o Chris foi mergulhar, mas que na hora de subir calculou mal e deu uma narigada na borda da piscina (ainda não entendo bem a logística disso, mas enfim…)
na verdade, não era um baita machucado, mas nariz sangra bastante. ele limpou, mas tava inchado e bem feio.
Olho pra Sprite, que me diz “vamos ligar pro plano de saúde da viagem e mandar vir alguém aqui fazer um curativo nele”. Lembram que a gente tinha que contratar isso? Então…Bora aprender um pouco sobre Contratos Aleatórios (Rafael, pode ajudar por favor?)
Sempre tenha seguro de viagem. É o que posso dizer.

22h30: ligamos para a empresa. Aquele atendimento gerundístico de sempre, mas me garantem que em 15 minutos alguém chegaria para fazer o curativo.
23h: ligamos para a empresa. A paciência esgotando e nada de chegar o paramédico.
23h30…
23h45…
00h00… Chamo a Sprite num canto, o nariz do Chris parece uma batata a essa altura, falo pra ela pra gente pegar o garoto e levar pra algum hospital a gente mesmo. Imagina se o moleque manda uma foto do nariz pra mãe? A mãe liga pra escola, que liga pra diretora, que fica puta, liga pra mim e em 5 minutos já era mesmo, fora que a mãe ia de jegue pra Brasília atrás do filho… Nessas horas, o melhor é resolver a situação rapidamente e depois de tudo pronto, avisar os pais.
Você é demais, Thiago. Parabéns

Chris tinha convênio médico! O Google me ajudou a achar um hospital aparentemente bonitinho nas redondezas. Chamamos o Uber, deixamos a outra monitora no hotel, todos dormindo e devidamente trancados (sim, é necessário…imagina se no meio disso tudo alguém me resolve atravessar a rua para experimentar um Rabo de Galo?), colocamos o Chris no carro e zarpamos pro hospital.
00h15: Chegando lá, um local super simpático: limpo, vazio, povo educado. Explicamos a situação: vou com o Chris pra triagem enquanto a Sprite faz as burocracias de convênio.
A enfermeira olha o nariz-batata e diz que aparentemente não tem nada de muito errado, bastava uma boa limpeza e já era, mas pra garantir iam fazer uma radiografia. Saímos aliviados. Aí, mais uma vez, o ‘libera 5 minutos antes’, o ‘corrigiu a prova?’, o ‘reunião de pais e mestres’ começa a agir…
Sprite me chama num canto, com cara de assustada. Me disse que o convênio do menino havia cortado vínculos com o hospital no dia anterior! Não tinha como ele ser atendido ali…
Eu sei que hospital é esse. Eles sempre dizem que o convênio foi encerrado no dia anterior. Comigo já aconteceu duas vezes

Uma enfermeira ouve a conversa e me diz que ali na frente, realmente na frente, havia um hospital público referência no Centro-Oeste, que era muito bom mesmo, me incentivou a levar o Chris lá. Sprite, sábia que é, me disse pra ir na frente sentir o clima e depois voltar e ver se valia a pena levá-lo, ela esperaria com ele na recepção do hospital onde já estávamos.
00h20: atravesso a rua rumo ao hospital público: o Hospital Regional de Taguatinga
 
Isso sim é conhecer a Brasília profunda. Eu conheço lá também.  
Capítulo 06: Pompéia, Vesúvio e Eu
Atravesso a rua e desço uns 50 metros. Uma grade de arame percorria todo o perímetro do estacionamento. Dentro, vários carros estacionados, me dá a impressão de estar meio cheio. Vejo uma roda de pessoas, ouço uns murmúrios…medo.
Me aproximo da roda, as pessoas me vêem, eu as vejo; elas me olham, eu as olho…apreensão.
Nesse vai e vem, meus passos ficam lentos, meu corpo apreensivo, enquanto se torna inevitável o encontro. Me aproximo. Os vultos indistintos tomam forma. Vejo um violão…pera aí…um violão? sim. um violão! Acontece que era um grupo de jovens de alguma igreja evangélica que estavam ali fora, no estacionamento, à meia noite e meia, cantando ‘uns louvor’ para orar pelos doentes.
Confesso que depois dessa nem entrei no hospital. Afinal de contas, saber que uma rodinha de crentes estava ali de madrugada com um violão cantando as glórias do Senhor já me seria o bastante para confiar no local. 00h35: Volto para o hospital onde estavam Sprite e Chris. Ela me pergunta o que achei do Hospital Público, eu digo que achei super ok e que dá pra ir sim. Ela me pergunta se eu entrei. Eu digo que sim. Ah, o poder do ‘pode olhar prova mais tarde hoje?’ novamente se revelando… 00h45: atravessamos a rua temeroso, Chris super desconfiado e desconfortável. Passamos pela grade de arme do estacionamento, nada da rodinha dos jovens cantores.
Como assim? Eram fantasmas?
Só nos resta entrar no hospital. Entramos no hospital e eu tomei um susto: as paredes com infiltrações gigantes, descascando a tinta, o chão de um piso em péssimas condições, a luz piscando bem amarela, muita, mas muita gente sentada na espera e algumas macas. Sprite me olha com um olhar maligno. Temo. 00h47: tranquilizamos o Chris, dizendo que vai dar tudo certo, e esperamos que daria mesmo. Vamos ao guichê de atendimento e encontramos uma senhora anacrônica de óculos cujas lentes pareciam fundo de retroprojetor (lembram disso?) que, sem olhar na nossa cara, diz que o tempo de espera é de 40 minutos para a emergência. Sprite encarnou o Cão (ou a Cã, vai saber): estufa o peito e fala alto que estamos com um menor, que não se pode negligenciar o atendimento a ele e que se não fôssemos atendidos, faríamos um escândalo. Sra. Anacrônica Retro ignora solenemente. Nesse momento, passa uma maca com um paciente gritando e a perna estourada, cheia de pus e sangue. Chris grita alto. 00h50: eu abraço o Chris, puxo ele de lado e tento tranquilizá-lo. Nesse meio tempo, Sprite tenta em vão o atendimento. Nos olhamos e decidimos ir embora. Vamos chamar o Uber e esperar lá fora.
E agora, amiguinhos, é que começa nossa aventura…
 
Capítulo 07: Temístocles duvidaria. 00h55: pedimos o Uber. Esperamos perto do hospital particular, aquele do outro lado da rua, por razões de cagaço.
01h00…
01h15…
01h17: tentamos cancelar algumas vezes, o aplicativo era novo no Brasil e em Brasília. O motorista parecia ziguezaguear pelos arredores, parecia uma barata tonta. Enfim, chega.
Era um carro simples, daqueles que estão na risca para ser aceitos no Uber. Até aí, nenhum problema. Antes de entrar, eu dou uma bela olhada no personagem que guiava o veículo: era um cara de uns 35 anos, com óculos de fundo de garrafa e incrivelmente apertado entre o banco e o volante, com sobras de todos os lados (por favor, deem um nome pra ele). Eu pergunto o que houve, se ele tinha se perdido. Ele responde que o aplicativo tinha dado a localização errada (hoje sabemos que é o famoso migué, mas na época, e àquele horário, eu só queria voltar pro hotel e dormir). Entramos.
Peraí? Essa história piora?

Sprite foi atrás com o Chris, eu na frente ao lado do motorista, igualmente apertado.
O caminho era simples: bastava atravessar uma grande avenida central, chamada Avenida Central, cruzar perpendicularmente uma rua cujo nome bizarro lembro até hoje (St A Sul CSA 1, deve ser aqueles nomes que só quem mora em Brasília entende),  
Como brasiliense, me compete dizer que esse é um nome normal. A propósito, a CSA 1 fica ao lado da CSA 2. É muito mais lógico que a Alameda Santos ficar ao lado da Rua Cubatão.
chegando a uma pracinha em frente ao Hotel. Simples. Coisa boba. 3,6 km, jogo rápido. Logo logo estarei deitado em minha cama para descansar. Ou não…
Neste momento, mais uma vez, o ‘prazo de digitação é até terça’, o ‘5º dia útil é só segunda que vem’, o ‘Sor, respondi a 2 no espaço da 4’ resolve agir. E agiu em grande estilo.
Como disse, a viagem teria 3,6 km. Deveria durar coisa de 15 minutos. Pois bem… 01h30: Começo a desconfiar. Tá demorando demais. Me lembro razoavelmente bem do caminho de ida até o Hospital, me lembro de cruzar a Avenida Central, e aquele caminho que o motorista fazia não era nem remotamente parecido. Estávamos indo literalmente para o lado oposto, quando dei conta. O Chris estava chorando muito, a Sprite tentava conversar com ele. Primeiro, tentando explicar a diferença social que existe entre o hospital particular, lindo, limpo e cheiroso, e o hospital público que vimos, como isso denota uma profunda questão social….bla…bla. Não consigo imaginar o porquê esse assunto não acalmou o garoto. Depois, começaram a falar de qualquer outra coisa, e eu entrei na conversa pra apoiar. Foi quando percebi a demora e o trajeto.
Pois bem, abro meu aplicativo o Uber. Ele mostra o trajeto esperado e o nosso estava, realmente, indo pro lado oposto. Quando paro pra observar, estamos em uma quebrada, daquelas bem tensas mesmo. Olho furtivamente para o motorista, que me deu um Olhar 43 (Rafael!) e sorria sadicamente de canto de boca. O carro para abruptamente, cantando pneu.
Ah, cacete…
01h35: Olho em volta. Era um imenso terreno vazio. Parecia uma área da cidade que não estava construída ainda. Ao redor, me parecia um boteco e algumas moradias à la favela. À minha frente, aqueles ‘encanamentos’ de concreto que a prefeitura usa para construir aquelas redes de drenagem fluvial, sabe? Me pareciam imensos, uns 3 metros de diâmetro. Pensando agora, não sei se eram realmente imensas ou se o medo da minha iminente morte, da minha amiga Sprite e do jovem Chris é que aumentou a circunferência do fúnebre objeto.
O Uber freara ali com os pneus cantando, meio que fazendo uma semicircunferência ao estacionar. Olho pra cara do motorista, certo de que vou encontrar a cara do Jack Torrance do Centro Oeste me olhando com o frio olhar com o qual o abatedor fita o gentil bovino antes de lhe cortar a garganta, aquele olhar de ‘você já morreu, só falta cair duro’…
O motorista me olha e fala “pronto, chegamos!”.
Hahahahaha
  ‘Chegamos onde, cara pálida? Na vala onde seremos desovados após nosso iminente óbito?’, pensei. Acontece que o puto realmente achou que estávamos hospedados ali, naquele encanamento de concreto, no meio da quebrada. Uma mistura de alívio, raiva, medo, cagaço e coragem me deram um ímpeto e eu (pelo menos lembro assim) disse aos berros ao motorista: ‘meu amigo, a gente tá indo pra um hotel! Isso aqui te parece um hotel?’. O cara olha pro aplicativo do Uber, totalmente perdido. O aplicativo mostrava que ele estava longe do hotel e que nosso destino não era lá. Ele me fala que até um segundo atrás, o aplicativo mostrava que o caminho era o que ele fez, e que agora, só porque ele virou o celular pra mim, houve uma misteriosa e sinistra mudança de itinerários.
Eu ligo o meu celular, digo que vou guia-lo pelo caminho correto, ele liga o carro, manobra e sai. Meu esfíncter relaxa de uma forma quase sensual. Alívio.
Olho para trás, Chris e Sprite tensos, mas cientes da situação. A viagem segue. A aventura ainda não acabou… 01h50. O Caminho parece familiar, reconheço as redondezas, em breve devemos chegar à Avenida Central. Não relaxo porque a esse ponto estou certo de que nosso motorista está certamente entorpecido. Entramos em uma rua perpendicular, já posso ver ao longe a Avenida. Nos aproximamos da Avenida. Agora não tem erro, certo? Errado.
Cruzar a Avenida Central não é um grande desafio. O problema é que entramos nela em um sentido, precisando fazer um retorno e pegar o outro sentido dela para poder chegar ao Hotel. O motorista sabia disso, só não sabia como fazer…
Entramos na Avenida Central, no sentido contrário ao que queremos, vejo o retorno e aviso a ele. A outra pista estava bem cheia: muitos caminhões, muitos carros e algumas motos, todos andando na velocidade da madrugada e com aquela atenção que sabemos bem. 01h55. Duas vezes na minha vida eu achei que fosse morrer. Uma foi aqui.
O motorista vê o retorno para trocar de pista e simplesmente acelera, vai entrando. Eu me assusto, olho para o lado e vejo uma daquelas imensas carretas vindo em uma velocidade insana em nossa direção, ia atingir em cheio o carro, e eu seria o primeiro a virar paçoca. Eu grito ‘caminhãaaaaaaaooo’ e vejo os faróis da carreta quase tocar o meu ombro, eu me lembro daquela luz até hoje, dos detalhes do vidro do farol…
Como este não é um e-mail psicografado, todos sabem que eu não morri (imagina se esse fosse o fim da história?).
Que tenso, cara. Quando essa tensão vai acabar?

Quando eu gritei, o motorista freou assustado, o caminhão também. Eu realmente acho que havia coisa de 1 milímetro entre o farol do caminhão e a minha chegada ao Paraíso, mas a colisão não aconteceu. O trânsito todo parou. O motorista, em choque, tirou as mãos do volante e as levou ao rosto. Chris vomita e começa e berrar, Sprite, tenta consolá-lo. O moleque só bateu o nariz na piscina! Cacete! Eu quase morri repetidas vezes naquela noite por conta de algum curativo que um band-aid teria resolvido! Mas não! Somos responsáveis, temos que fazer tudo direitinho, olha onde isso deu! Imagina minha esposa, minha mãe, a família toda recebendo a notícia que eu morri esmagado em um celta em Taguatinga após levar um aluno no hospital por conta de um machucadinho no nariz? Todos esses pensamentos e acontecimentos duraram aproximadamente meio segundo.
Grito pro motorista ‘sai daqui!’. Ele acelera e vai. A trilha sonora: Chris chorando, motorista também. Cheiro de vômito. Eu tremia todo. O caminho estava finalmente certo, pude ver a praça do hotel. Essa maldita aventura iria finalmente acabar. Ou não… 02h01. O hotel ficava ao centro de uma praça. Havia um caminho correto para se entrar no estacionamento. O caminho era marcado por aqueles pequenos postinhos de concreto, de um metro e altura, sabem? Então…o motorista foi batendo em postinho sim, postinho não. Imaginem a sensação, som e medo dessas pequenas colisões. Era um carro pequeno, e já tinha aguentado muita ação pra uma noite só. Eu morrendo de medo daquilo explodir o carro, ou qualquer coisa assim (dá um desconto, olha a noite que eu tive) e morrer a 12 metros do hotel. De uma forma ou de outra, chegamos ao hotel dirigindo por cima da calçada. Os funcionários da segurança todos cercando o carro e certos de se tratar de uma invasão ou algo assim.
Saio do carro, abro a porta de trás, ajudo Chris e Sprite a sair, todos vivos e bem (dentro do possível). Olho para o motorista que, chorando e em choque, me implora ‘moço, não me dá uma avaliação ruim no Uber não, estou começando hoje e preciso trabalhar’. Respondo que não o avaliaria mal não, só queria que ele fosse embora.
Entramos no hotel. Pegamos um kit de primeiros socorros, anti séptico e band-aid. Àquela altura, o nariz do Chris era o menor de nossos problemas. Limpamos a ferida, pusemos um band-aid amarelo da Minnie e pusemos ele pra dormir. Levo a Sprite pro quarto dela, ela me abraça chorando e a gente passou uns bons 5 minutos chorando e gritando dentro do quarto (lembra de Rick and Morty? Tipo isso). Vou pro meu quarto finalmente dormir.
Hahahahaha. Posso imaginar
Epílogo No dia seguinte, ou poucas horas depois, depende do ponto de vista, acordo e tenho que estar feliz e contente para organizar mais um dia de passeios pela Capital. Saímos bem cedo e foi um dia muito bom. O Chris, como a maioria dos adolescentes de 16 anos, parecia ter superado as mazelas da noite anterior com uma rapidez invejável.
Naquela noite, estamos quase indo colocar os alunos pra dormir, quando recebo uma ligação do hotel.
Lembra que no começo dessa jornada a gente ligou pro plano de saúde da viagem, pedindo um paramédico? Então, eles haviam acabado de chegar. Apenas 24h depois do chamado, um tempo recorde! Não preciso nem contar o que eu, Sprite e depois o dono da empresa de turismo falamos pra essa empresa de saúde, né? É isso! Espero ter contribuído com o episódio. Parabéns pelo incrível trabalho de vocês e obrigado por serem uma constante e excelente companhia para mim nas estradas da vida há tanto tempo. E Guga: rola aquela esperança de eu ganhar o laptop que você prometeu. Estou escrevendo essa história da sala dos professores e o povo tá me olhando estranho. Valeu!
 

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Sobre o Gugacast

No Gugacast contamos histórias épicas da vida das pessoas. O programa é apresentado por Guga Mafra, com seu irmão, Rafael Mafra

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Guga Mafra

Rafael Mafra

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Ficha técnica:

Apresentação: Guga Mafra
Edição: Roberto Oksman de Aragão
Roteiro: Rafael Mafra
Produção: Guga Mafra
Assistente de Produção: Roberto Oksman de Aragão

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