HISTÓRIAS DE PROFESSORES – Gugacast – S05E13

By abril 10, 2020Mais Histórias

A Criança Estelar

 
Olá, Guga, Rafael e Caio, o editor gato!
Me chamo Vivian, sou professora, graduada em Pedagogia, moro em Maceió- Alagoas e tenho 29 anos. Ser professora é algo que realmente gera boas histórias, principalmente quando se trabalha com crianças tão pequenas, que é o meu caso. Já passei por diversas situações fofas, como ganhar flores todas as manhãs ou ver aqueles olhinhos admirados achando que eu realmente era uma princesa ao interpretar uma história. Algumas situações inusitadas com os pais, como um pai divorciado que não tinha uma boa relação com a ex, colocando um áudio do whatsapp no meio de uma reunião para que eu ouvisse o absurdo que a mãe estava falando.  
Que situação. O pai da criança provavelmente queria que a professora dissesse “que absurdo” para ele poder mandar um áudio “até a professora da nossa filha achou um absurdo”. Mas o verdadeiro absurdo foi ele ter mostrado o áudio para alguém que não tinha nada a ver a não pediu para ser envolvida nisso.
  Situações de perigo, como levar um soco de um aluno com hiperatividade, bem no nariz, ficar alguns minutos desorientada e com o nariz inchado por dias. Enfim, ser professora é uma grande aventura e eu amo muito!  
Que heroína! Parabéns!

Mas gostaria de compartilhar uma história que me marcou. Fui professora de uma garotinha chamada Maria Flor  (peço que mudem o nome dela, de preferência para um bem fofo),
 
Eu mudei, leitores. Eu mudei. Fiquem tranquilos. A não ser que vocês vejam outro nome diferente de Maria Flor, aí eu falhei na edição. Tomara que não aconteça.
  em seu primeiro ano na escola e no seguinte eu continuei como professora da sua turma. Como todos já estavam adaptados comigo, o ano iniciou muito bem, sem choro das crianças e os pais confiantes por me conhecerem, no entanto a Maria Flor andava quieta, ficava no cantinho da parede choramingando, quando a colocava no colo ela se acalmava um pouco, mas não parecia estar realmente bem. Na hora do lanche ela recusava os alimentos, algo que nunca havia acontecido no ano anterior. Percebi que havia algo errado, então falei com a sua mãe, ela também estava notando esse comportamento em casa e disse que a levaria ao médico na semana seguinte.
Algo importante sobre a Maria Flor: ela não era uma criança que aparentava estar acima do seu peso ideal e tivera sempre uma alimentação exemplar, contudo o tamanho de seu abdome era grande para a sua estrutura corporal, os pais já haviam investigado isso com o pediatra e o mesmo afirmou que ela tinha o estômago dilatado.
Passada a semana que ela tinha ido ao médico e feito alguns exames, chegou a sexta-feira e a mãe já havia informado que ela faltaria novamente, pois iriam ao médico pegar os resultados. No fim da tarde, antes de ir embora a coordenadora me chamou em sua sala, ao chegar lá ela pediu que eu sentasse e falou que a mãe da Maria Flor havia ligado arrasada e informado que ela estava com câncer em um dos rins, que já estava num estágio avançado.  
Ah, não! Ah, não MESMO. Isso é além do bad vibes.
  Eu fiquei alguns minutos sem entender e depois caiu a ficha, ela só tinha 2 anos, completaria 3 anos no mês seguinte, como isso era possível? Então não aguentei e fui para casa chorando, trabalhar com Educação envolve muito profissionalismo e ao mesmo tempo uma grande carga de afeto, principalmente quando lidamos com crianças pequenas, por isso para mim foi impossível não me sentir abalada com a notícia.
 
Imagino. Se eu já estou vontade de chorar, imagino se eu conhecesse e convivesse com a menina.

Maria Flor deixou de frequentar a escola e explicava à turma, que questionava sobre sua ausência com frequência, que ela voltaria quando estivesse melhor.        
Um tempo depois… Maria Flor já havia feito a cirurgia e começaria a quimioterapia que duraria até o final do ano, a sua mãe  entrou em contato comigo e contou como ela estava, falou da sua preocupação com o fato dela ficar 1 ano inteiro sem escola e ter que permanecer tanto tempo dentro de casa por conta da sua imunidade,então perguntou se eu poderia dar aulas particulares para a Maria Flor, não precisei pensar duas vezes, logo aceitei!  
Aula particular de jardim de infância! Que fofo!
  E foi assim que passamos todos os meses de sua quimioterapia, 1 vez por semana eu ia até a sua casa e passava 1 hora com ela, sempre era recebida com um abraço apertado e a sua família sempre relatava como ela passava o dia inteiro ansiosa para a minha chegada. Um dos dias que mais me emocionei foi quando cheguei e ela tinha voltado do hospital, estava com uma daquelas pulseiras de identificação, ela veio até mim segurando outra em que havia escrito “Tia Vivian”, a mãe me contou que ela pediu uma para mim no hospital e em casa pediu que escrevessem meu nome nela. Passamos aquele dia nos divertindo e aprendendo, cada uma com a sua pulseirinha. Foi assim em todos os dias durante o seu tratamento, ela sempre muito animada e curiosa com as novidades que eu levava.
Então, o final do ano chegou, nossas aulas acabaram junto com sua quimioterapia, que ocorrera tranquilamente, em nenhum momento sua imunidade baixou, resultado de muito cuidado com a sua alimentação. Isso tudo aconteceu em 2018, ela agora já está de volta à escola e com 5 anos de idade, sempre mando mensagem para a sua mãe perguntando como ela está, nunca esqueço da minha pequena Maria Flor. Conviver com a sua alegria, mesmo durante um tratamento tão difícil, me ensinou muito. Essa é uma história que levo num lugar bem especial do meu coração, envio para compartilhar com vocês uma experiência que me fez aprender mais do que ensinar. Espero que gostem, beijos para todos vocês, adoro o podcast! Se possível mandem um beijo para o João, ele adora o podcast também e foi quem me convenceu a escrever essa história 🙂
Aê! Final feliz! Um beijo, João! Um beijo Professora-da-Maria-Flor!
 

Apresentação Brutal (sério, esses nomes do He-Man são os melhores)

A nota da discórdia
Nada feito. Eu que dou os títulos por aqui
Saudações aos simpáticos membros da bancada mais good vibes da podosfera. Por motivos de segurança da integridade física dos envolvidos, peço que troquem todos os nomes da história que aconteceu no ano de 1999.
Você poderia ter trocado já, assim aumentaria a segurança. Fica a dica!

Eu, apesar de ter apenas 25 anos de idade já era professor de graduação desde os 22 e acabara de ser nomeado coordenador do curso de Processamento de Dados. Eu era mais novo que todos os professores e mais novo que a média de idade dos alunos do turno da noite.
Havia um aluno diferente, cujo nome era Arnaldo.
Arnaldo sempre cai bem.
Ele devia ter uns 30 anos de idade na época, já trabalhava como servidor público em um órgão federal e era um típico aluno que ficava o tempo todo na dele. Não era popular, não se entrosava muito com os demais, tinha algumas dificuldades cognitivas, mas o pior era que ele andava armado para todos os lugares que ia.
O QUÊ?
Isso mesmo. Ele levava um revólver numa pochete para a sala de aula.
Estou chocado pela arma. Mas também pela pochete. Em 1999? Sério? Eu só ousei usar uma pochete até…1998.
Na época, no regimento interno da faculdade não haviam menções sobre porte de armas e o estatuto do desarmamento entrou em vigor apenas em 2003.
Nem todos os professores sabiam dessa prática de Arnaldo, mas os alunos mantinham uma relação de respeito/pavor com o mesmo.
Odeio “/”. Era respeito ou pavor? Acho que era respeito e pavor. Então é melhor usar a palavra “e”, uma conjunção que é utilizada para acrescentar elementos com a mesma função sintática na oração.

Naquele ano, Arnaldo precisava construir seu Trabalho de Conclusão de Curso de Graduação (TCC). Normalmente um TCC era desenvolvido por uma equipe de 2 a 3 alunos, mas por algum motivo, ninguém quis fazer o trabalho com ele. Ele ficou sozinho. Escolheu um professor que respeitava muito para ser seu orientador: o professor Ednaldo. E para surpresa de zero pessoas, o tema escolhido para o TCC foi o desenvolvimento de um Sistema para Recarga de Munições.
Até aí, tudo bem. O TCC andou e foi desenvolvido com o apoio do orientador. Marcadas as defesas para o final de ano, a banca precisava ser montada. A notícia correra na sala dos professores e por algum motivo nenhum docente quis participar desta banca. Sobrou para a professora Osvalda de metodologia e para o então coordenador do curso, no caso eu. Quinze dias antes da defesa, recebi um protocolo inusitado do Arnaldo. Ele pedia que a sua defesa fosse previamente filmada com ele explicando o trabalho, mas que ele não queria ter de falar em público na data da defesa. Apenas responderia às perguntas da banca, se existissem.
O QUÊ?

Aquele pedido era novidade. Fui à direção da faculdade consultar sobre o pedido especial. Foi autorizado.
No dia da defesa, a sala estava com umas 12 pessoas, entre colegas dele e a banca. TV de 32 polegadas e videocassete preparados. Arnaldo já estava devidamente preparado com a fita VHS em mãos e foi autorizado a iniciar.
Ele desligou as lâmpadas da sala, inseriu a fita no aparelho e pressionou o botão de play. Quando começamos a assistir, uma surpresa: ele se filmou apresentando o trabalho sem camisa e no seu quarto de casa. Cheguei a pensar em interromper na hora, e consultei os demais membros da banca, mas eles optaram em dar sequência a defesa.
Tinha que ter parado aí. O Arnaldo é muito abusado.

O TCC em si não era ruim. Pelo contrário. A proposta era coerente com a pauta de Tecnologia de Informação e fora bem executado.
Após uns 20 minutos, foi finalizada a etapa de defesa em vídeo. A fita continuou tocando e iríamos para as argumentações da banca. A TV estava com aqueles chuviscos na tela, igual a quando as retransmissoras de TV ficavam de madrugada, quando da interrupção do sinal para que todos pudessem dormir. Era comum nas fitas VHS terem gravações em cima de gravações antigas e surgiu na TV uma dessas gravações anteriores.  
Torcendo para que seja um trecho da novela “Andando nas Nuvens”
  As cenas eram de Arnaldo praticando tiro ao alvo. Garrafas pet, melancias, latas e garrafas sendo estraçalhadas por projéteis de diversos cartuchos. Pareciam gravações de treinamento militar. Roupas e enfeites à caráter. Bastante intimidador. Ordenei que ele interrompesse a execução da fita e ele chegou até a pedir desculpas pelas imagens. Informou que eram antigas. Mas entendemos o recado intimidador.
Cara, que babaca que é o Arnaldo
Fomos às perguntas e apesar dos sustos finalizamos a defesa. As notas não eram divulgadas na hora, mas apenas três dia depois. A nota final do TCC foi divulgada como 8 e uma fração, pois o projeto em si era bom. Recebi a visita do Arnaldo, indignado, no mesmo dia da liberação da nota, querendo saber o nome de quem dera notas baixas, segundo ele. A nota mínima para ter o TCC aprovado era 7, mas Arnaldo achava que seu projeto valia pelo menos um 9 e meio. Informei que não era permitido divulgar o extrato que levara à nota final, pois era contra as regras da instituição. Ele não aceitou muito bem e saiu de minha sala dizendo que um dia iria descobrir o autor da nota ruim. O fato acabou circulando na faculdade, mas como era final de ano e as férias se aproximavam, não houve repercussão. Dois meses depois, durante a cerimônia de colação de grau da turma, em meio às festas e alegrias, parecia que tudo havia sido esquecido ou pelo menos amenizado. Ao entregar o diploma ao Arnaldo, fui parabenizá-lo e ele respondeu bem baixinho só pra mim que não havia esquecido, mas que não guardava mágoas de mim.
O mês de fevereiro chegou e início das aulas do próximo período letivo. Tudo novo. Ao fim de uma noite, ao encerrar voltar para o carro estacionado, eu passava em frente a um bar próximo a faculdade e escutei um chamado de uma das mesas: professor… professor…. sente aqui comigo. Era Arnaldo, sentado sozinho, bebendo uma cerveja. Fiquei na dúvida se deveria ir, mas acabei cedendo e fui falar com o mesmo. Sentei e recusei o convite para a cerveja, mas pedi um refrigerante. Falamos amenidades durante uns 5 minutos até que ele soltou que ainda estava caçando o autor da nota baixa, mas que queria apenas entender o motivo e que não faria nada de mais com a pessoa. Voltei a pedir que ele desistisse disso e que deixasse a vida seguir, pois aquilo não faria mais sentido. Ele concordou hesitante.
Durante o primeiro semestre de 2000, voltei a vê-lo no mesmo bar pelo menos umas cinco vezes mais. Quero acreditar que era apenas saudades do ambiente próximo à faculdade. Depois disso nunca mais vimos Arnaldo e nenhum professor foi incomodado.
De certa forma, é um final feliz

Um abraço a todos.  

Um amigo em perigo


Olá Guga, Caio, Rafael e possível convidado, tudo beleza? (Troquem os nomes) Me chamo Charles Xavier e sou professor de matemática há 24 anos.
Caraca! Parabéns!
Irei contar um perrengue que passei dando aula.
Trabalhei em uma escola pública municipal em 2008, onde havia um aluno (7°ano) “Scott Summers” que sofria de convulsões, no entanto uma convulsão na qual ele se encolhia e babava bastante. A orientação era que quando ele tivesse assim bastava acomodá-lo no canto e esperar se recuperar.
O pior é que como a escola não podia administrar remédio aos alunos, ele mesmo se automedicava. Ou seja, a mãe dava o vidro de remédio para o garoto tomar nos horários definidos pelo médico (acredito eu) , às vezes ele esquecia e tinha convulsões.
Que difícil

Certo dia, depois do intervalo ele começou a babar bastante, mas uma baba muito grossa e densa e uma aluna gritou:
-Professor Xavier! O “Scott Summers” está tendo uma convulsão!
Rapidamente todos já sabiam do problema e já o acomodaram no canto, já que o problema era frequente havia até almofadas trazidas pelas alunas.
Então eu disse:
– Não fiquem em cima dele! Ele precisa respirar.
O Professor Xavier sempre sabe o que fazer! Que sábio!

Percebi que ele não respirava normalmente, então estranhei.
Uma outra aluna
Possivelmente a Ororo Munroe
então gritou:
– Professor, eu acho que ele tava com um pirulito na boca.
E eu:
– Ein???
Ein???

Imediatamente abri a boca do menino no meio daquela baba toda para ver se o pirulito estava lá e….
Tava no fundo da garganta! Só dava para ver o cabo do pirulito.
Ah, não!

Entrei em pânico, mas sabia que tinha que fazer alguma coisa.
Enfiei os dois dedos na garganta dele, o indicador e o dedo do meio e como uma pinça fui puxando o cabo, morrendo de medo de empurrar mais pra baixo.
Quando retirei o pirulito o garoto deu um baita suspiro, como se quisesse puxar todo o ar possível.
Aí, Professor Xavier! Sempre sabe o que fazer!
No fim não era uma convulsão, ele havia engasgado mesmo. Como esse aluno tinha muitos problemas, ele nunca teve a oportunidade de me agradecer.
E ainda por cima me odiava e vivia dizendo que o professor de matemática jogou o pirulito dele no lixo, e que isso não era justo.  
Ah, Scott Summers! Que ingrato!
Essa é a história.
Eu e meu filho adoramos o podcast de vocês.
Abraços    

O Despertar dos amanhecidos

Olá Guga Rafael e Caio

Eu sou a Tuana Mesquita e resolvi mandar essa história sobre o pequeno período da minha vida em que eu fui professora de Biologia e Química na rede Estadual de Ensino no Ceará.
Seja bem-vinda de volta, Tuana
Acho que posso começar quando eu tinha 6 anos de idade. Minha mãe me perguntou pela primeira vez  o que eu queria ser quando crescesse. Eu pensei um pouco em todas as profissões que eu conhecia até o momento, e proferi com muita confiança:

“Quero ser professora!”

Mamãe ficou meio triste e disse:

“Tadinha… Vai ser pobre mesmo.”
Hahahahaha. Que triste. Pior que essa é uma fala muito comum

De tempos em tempos essa cena volta à minha memória. Na época eu queria essa profissão porque minhas professoras eram as pessoas de quem eu mais gostava, depois dos meus pais. Ao longo dos anos minha resposta mudou várias vezes. Já quis ser médica, arquiteta, matemática e cientista. Acabou que eu virei bióloga. Mas é aí que está a beleza da vida. Sou Bacharel e Licenciada em Biologia, o que me qualifica a ser professora e cientista ao mesmo tempo!

E foi assim que um certo dia, em 2004, ainda no último semestre da faculdade, eu me inscrevi em um concurso estadual para professor(a) no ensino médio em Fortaleza, minha cidade natal.

Fui aprovada, mesmo sem estudar e sem ter muita vontade de ser professora nessa época. Eu estava estudando para a seleção de um mestrado em Bioquímica ao mesmo tempo em que era bolsista num laboratório de genética de plantas, estava terminando Biologia à noite , fazendo faculdade de Farmácia pela manhã, estudando Francês e Alemão, porque eu achava que não ocupava o meu tempo o suficiente (acho que cunhei o termo estudaholic). Na verdade eu sempre fui muito indecisa e como não conseguia decidir entre duas opções, acabava abraçando o mundo com as pernas, tentando fazer tudo ao mesmo tempo agora.
A Tuana do passado precisava de uma intervenção

Mesmo assim, era um emprego público. Então assumi a vaga em regime de 40h. Resolvi abandonar a faculdade de Farmácia e o curso de Alemão. Resolvi focar no Francês pois já pensava em me mudar para o Canadá um dia. Por fim, me formei em Biologia. Minha nova rotina seria ensinar de manhã e de noite, trabalhar no laboratório pela tarde, estudar para a prova do mestrado e Francês nos finais de semana.

E foi assim que virei professora de Química e Biologia em duas escolas estaduais do Ceará. Pela manhã em uma na Serrinha e à noite em outra na Barra do Ceará, bairros com fama de não serem lá muito seguros. As escolas eram bem distantes, mas minha casa e o laboratório ficavam no meio do caminho de uma pra outra. Foi uma época em que eu tinha minha vida inteira no meu carro: roupas, comida, sapatos e livros. 

Não foi a primeira vez em que fui professora. Eu já havia dado aulas durante alguns meses como estágio obrigatório para obtenção do diploma de licenciatura em Biologia. Entretanto, era a primeira vez em que eu ensinava na rede pública. Eu não sabia o que esperar, e confesso que me surpreendi positivamente. Ambas as escolas eram muito bem geridas, tinham uma boa estrutura de ensino, apesar do pouco investimento que o governo repassava a época. Todos os outros professores eram bastante experientes e sempre olhavam pra mim com um ar meio superior, como quem pensava que eu estava completamente perdida ali. E estava mesmo. Eu não sabia que não existia um programa letivo para as escolas. Cada professor decide o que vai ensinar em cada ano do ensino médio. Não existe um guia. Uma das diretoras riu da minha cara quando perguntei sobre a existência de um programa letivo. Ela só me deu as pastas dos anos anteriores e disse: 

“Você tem que ver o que o professor estava ensinando antes e decidir o que quer ensinar a partir daí.”
Já houve uma época em que havia um program letivo para cada ano e já houve tempos em que isso não existia, era tudo baseado no livro que a escola escolhia. Desde 2015, se não me engano, existe uma coisa chamada Base Nacional Curricular Comum, que foi feita num grande movimento que teve mais de um milhão de comentários.

 
Tudo bem. Fui nas bibliotecas das duas escolas para decidir quais livros seguir. Preferencialmente autores os quais os alunos tivessem acesso aos livros na biblioteca, pensei. Planejei todas as aulas e, aos trancos e barrancos, comecei a ensinar esses adolescentes, com idades entre 15 e 50 anos, que serviram de cobaia para que eu aprendesse a ser professora.  Me sentia uma impostora a maior parte do tempo, mas aos poucos a naturalidade foi chegando. A vida é um pouco assim: Fake it until you make it.
Hahahahahahaha

Foi uma época muito pesada na minha vida. Eu, vitima de enxaquecas terríveis, às vezes saía da escola na sexta à noite, direto para uma emergência de hospital, para tomar soro e analgésico na veia. Tudo isso para ganhar míseros 650 reais, salário base para os professores estaduais na época (o que não era pouco para quem antes ganhava uma bolsa de pesquisa de 240 reais mas também não era lá muita coisa).

A melhor parte de tudo isso foi conhecer tantos alunos incríveis. A maioria estava na escola forçado, para não perder o dinheiro do bolsa-família e para comer a merenda escolar. Eu quase não tinha alunos ausentes.

Eu tive vários alunos memoráveis. E na verdade esse e-mail foi principalmente para contar as histórias deles. Tinha uma menina do terceiro ano que sempre estava com sono. Conversando com ela descobri que ela era dançarina de forró numa banda, e às vezes ia dos shows direto para a aula de manhã cedo. Ela não era muito interessada na matéria em si, principalmente Química, mas tinha várias perguntas filosóficas sobre a vida, sobre a objetificação do corpo feminino, e sobre a felicidade. Perguntas essas que sempre geravam um debate na aula, mas que eu costumava deixar acontecer sem muitos problemas, por um tempo. Sempre achei importante que todos pudessem opinar sobre os mais diversos assuntos sem medo. Certo dia ela apareceu com um olho roxo, o que me preocupou bastante, já pensando que ela tinha sido espancada pelo namorado. Mas ao ver minha expressão, ela veio logo me tranquilizar e contar que ela tinha brigado na rua com a outra dançarina da banda, que tinha roubado dinheiro da bolsa dela. Ela brincou:

“Se você tá preocupada comigo, imagina se você tivesse visto como ficou aquela quenga safada!”

Ri, esperando que a história fosse mesmo verdade.
Eu estou rindo um pouco também, mas não sei se devo


Tinha um outro aluno do 3o. ano que me pediu aulas suplementares para se preparar para o Enem. Eu tive que estudar Português e Matemática, e todo recesso eu ficava com ele na sala de aula resolvendo simulados do Enem, que eu tinha ainda da época em que eu cursei meu terceiro ano. Aos poucos, outros foram se juntando ao grupo, e tínhamos quase 20 alunos estudando juntos. Às vezes os outros professores também vinham me ajudar, ja que de vez em quando eu tinha dúvida em uma ou outra questão. 

Após o resultado do Enem, 5 dos 20 alunos conseguiram aprovação em universidades públicas. Foi uma felicidade mesmo para os que não tinham sido aceitos. Esses 5 alunos serviram como inspiração para os mais jovens que ainda estavam no primeiro e segundo ano. Toda a escola celebrou o sucesso deles.
Cara, que demais. Parabéns!

Na escola em que eu dava aula a noite, uma das turmas era exclusiva para pessoas mais velhas que haviam abandonado os estudos, e que gostariam de terminar o Ensino Médio. Era minha turma preferida. Alguns até levavam consigo os filhos, porque não tinham com quem deixar, ou para anotar a matéria porque eles não conseguiam enxergar o que estava escrito no quadro. A gente conversava bastante sobre o motivo de cada um ter abandonado a escola. Alguns abandonaram para se casar, outros para trabalhar, mas um deles me contou que  teve de deixar a escola porque foi preso ao roubar comida num supermercado para alimentar a mãe, que estava doente… Apesar de tristes, as histórias sempre terminavam com um clima de  esperança: que por mais injusta que a vida seja, sempre dá para você ter otimismo, colocar a cabeça no lugar, e colocar tudo de volta nos trilhos um dia. Um deles dizia que tinha voltado a estudar porque queria provar que era mais inteligente do que o filho que estava em outra turma na mesma escola. Eu também ensinava o filho dele e garanti que sim, pelo menos Biologia e Química, ele estava ganhando de lavada.

Uma lenda que sempre ouvia nessa mesma escola era sobre um aluno envolvido com tráfico que tinha sido transferido de outra escola por ter atirado em outro aluno. A bala não pegou (ou não matou), mas a solução encontrada foi transferir um deles, para evitar outros conflitos. Seria um aluno do segundo ano, mas eu não sabia se a história que rolava na sala dos professores era verídica, ou qual era a identidade do traficante atirador. Nenhum dos meus alunos tinha um perfil próximo ao que eu imaginava ser o de uma pessoa que tem coragem de atirar em alguém. Pra falar a verdade, todos pareciam adolescentes normais, com seus dilemas adolescentes, amores e tragédias, mesmo com vidas bem diferentes da que eu tivera na minha adolescência. O tempo passou eu eu esqueci desse causo. Concluí que deveria ser só história que inventaram para me assustar, já que eu era a pessoa mais inexperiente ali.
Ah, que tranquilo, né? Que ótima lenda urbana.

 
Chegou a época da feira de Ciências e todo mundo estava super empolgado com o show de talentos que ia acontecer. A feira de ciências não ia ter prêmio, porque gerar conhecimento é o próprio prêmio… Fui eleita pelos alunos para ser uma das juízas do show de talentos. Acho que como eu tinha apenas 23 anos, eles me viam como alguém bem mais próxima deles. Dessa feira de ciências, vi o surgimento de uma empreendedora – uma das alunas apresentou sobre a cultura cearense de se utilizar o lambedor (um remédio caseiro do tipo xarope, feito com plantas medicinais, comum no Nordeste). Ela ensinava a fazer lambedores diferentes para cada tipo de doença e, depois da feira de ciências, começou um negócio dentro da própria escola, vendendo seus produtos para os seus colegas
Sério? Lambedor?


O show de talentos foi sensacional. Teve apresentação de dança, bandas de rock, bandas de forró, um monólogo meio estranho feito por um aluno fingindo que estava engasgando e que ninguém ajudava ele, e, por fim, um grupo apresentou uma mini-peça de teatro. A peça era exatamente a história do aluno traficante, que atirava no inimigo de outra gangue dentro da escola. Ele, ao se ver na iminência de se tornar um assassino, se arrepende a tempo e desvia a arma para errar o tiro. Arrependido, ele implora para não ser enviado para uma instituição juvenil e pede para ser transferido para outra escola. Na situação da peça acontecia um milagre onde Jesus incorporava no juiz que cuidava de seu caso e resolvia lhe dar uma segunda chance. Foi uma peça bem resumida, afinal cada grupo tinha apenas 5 minutos para se apresentar. Mas a galera aplaudiu de pé. Eles venceram o prêmio que consistia num cupom para uma pizzaria rodízio local. Durante a premiação, o aluno que interpretava o traficante veio agradecer no microfone. 

“Eu sei que vocês têm medo de mim. Eu ainda tenho medo de mim. Obrigada por me dar uma segunda chance.”
CA-RA-LHO. A Lenda era verdade! E o cara fazia peças de teatro em que Jesus incorporava no juiz! Uma das maiores reviravoltas da história do podcast

Fiquei de cara no chão. Ele era um dos alunos mais esforçados do segundo ano. Estudava para as provas, prestava atenção na aula, fazia todos os trabalhos, e quando eu ia embora ele sempre estava do lado de fora da escola vigiando o meu carro para ninguém arranhar, segundo ele. Fico feliz que ele tenha tido a mudança de atitude a tempo, e que tenha resolvido se esforçar nos estudos. 

Enfim, eu continuei ensinando por uns 6 a8 meses, até que fui aprovada no mestrado com bolsa da CAPES (bolsista vagabunda, segundo alguns governantes atuais). Tive que pedir exoneração e deixar minhas escolas. Até hoje guardo os cartões que recebi dos meus alunos no dia dos professores e no meu aniversário. Parece que em 6 meses eu vivi uns 5 anos da minha vida, de tanta história acumulada. Mas o que eu queria mesmo ao escrever esse e-mail era terminar com o clichê mais clichê que as redes sociais já inventaram: “No final a maior lição quem aprendeu fui eu”.
Achei clichê mesmo, mas nem por isso menos verdadeiro.

Um beijo 

Tuana.

Protetor das Antigas Ruínas

 
Olá, Guga, Rafa e professor convidado, meu nome é Guilherme Pin (façam a brincadeira, por favor),
 
Com prazer: um, dois três, pin, cinco, seis, sete, pin, nove, dez, onze, pin….obrigado pela oportunidade!
  sou jornalista e um apaixonado por podcasts e não, não sou professor. Mas antes de criticarem o Rafa por ter selecionado este e-mail, a história a seguir é sim de um professor. Especificamente do professor universitário de matemática, Douglas. Vulgo, meu sogro.
 
Obrigado por esclarecer logo de cara. As acusações de que distorço os temas em favor de histórias incríveis são falsas.  
Poderia dar a liberdade para vocês o chamarem com os melhores nomes possíveis, porém existe um especial que ele vai gostar: o Pescador. Apesar de lecionar em universidades, Pescador também já ensinou diferentes turmas e em 2007 foi a vez da turma da quinta série B de uma escola estadual aprender com seus conhecimentos. Durante um período nesta turma, as equações e operações aritméticas deixaram de ser o foco principal daquelas aulas porque toda a atenção estava voltada para Arnaldo (podem dar o nome que vocês acharem melhor).
Nunca me canso de dizer que nós podemos sim dar os nomes que achamos melhor e o faremos sempre. Ter um podcast tem que ter alguma vantagem.
 
Arnaldo era um aluno de inclusão especial, por ser deficiente físico e mental. Porém ele estava matriculado em uma escola pública comum, abandonado pelo sistema de ensino.
Antes de criticarmos a família e os professores, é importante ressaltar que essa história se passa em uma região periférica e bastante carente (de dinheiro e de informação) de São Paulo. Não sei informar a deficiência desse rapaz, pois ele não fazia nenhum acompanhamento médico e psicológico. A mãe fazia questão de mandá-lo para a escola na esperança de ajudar seu filho, mas ela não sabia que ele sofria muito bullying.
 
Uma situação difícil. É necessário incluir e dar condições. As duas coisas, juntas.
 
Os professores viam a situação, tentavam colocar panos quentes, mas é difícil dar uma atenção especial quando se tem outros 50 alunos colocando fogo nas coisas (às vezes literalmente, mas essa já é outra história). Todos estavam levando a vida, não na situação mais ideal, mas levando… Porém houve um dia específico em que nem o aluno do fundão conseguia ganhar a atenção. Arnaldo  se tornou o centro da classe por estar arrancando a pele do próprio braço. Todos os presentes estavam agoniados observando o sangue escorrendo, e Pescador sabia que precisava tomar alguma providência para ajudar Arnaldo.
Cara, que bad vibes.
Sempre que ia busca-lo, a mãe (podem também escolher o nome) de Arnaldo perguntava ao Pescador como seu filho estava se adaptando ao colégio e a explicação sempre era a mesma: “tá indo”. Porém, após o acontecido, a resposta se tornou outra, com Pescador oferecendo à mãe uma visita à uma das aulas da sala de seu filho. A mãe, aos prantos, viu o filho “em pé” correndo atrás de seu caderno que estava sendo jogado de um lado para o outro pelos seus “colegas”.
Pescador, a cada dia que passava, sentia-se mal ao ver um de seus alunos naquela situação e recorreu ao padre da região, que era uma figura importante. Pescador foi questionar se havia uma possibilidade de Arnaldo  ingressar à uma escola direcionada para crianças especiais. O padre convidou a mãe e o garoto para uma entrevista no colégio com todos os documentos necessários.
(Bom dizer que esse processo não havia sido feito antes por questões burocráticas. O bairro era periférico, a mãe trabalhava para sustentar a casa e os serviços sociais não eram exatamente atenciosos) No entanto, antes de passar a mensagem do convite, Pescador, junto à sua mulher, a Enfermeira – vulgo, minha sogra – foram até a casa do Arnaldo ver se precisavam de ajuda e ver se uma nova escola realmente seria o melhor para o menino. O Pescador foi vestindo uma camisa do São Paulo – mesmo sendo corintiano – em homenagem ao menino, que, ao vê-lo, abriu o maior sorriso que ele poderia abrir. Primeiro, por ver seu professor em sua casa. E segundo, pela camisa de um tri campeão mundial (desculpa, sogro).
Hahahaha. Zoeira justificada pelo belo gesto do Pescador.
 
Durante a conversa, a mãe contou que era necessário carregar seu filho no colo por mais de um quilometro devido suas dificuldades de locomoção. Foi então que o Pescador revelou o motivo de sua ida, repassando o convite do padre. Pescador assumiu a responsabilidade de levar os dois à entrevista, que resultou na matrícula do menino. Os olhos da mãe agora continham lágrimas de felicidade ao ver que seu objetivo de fazer o melhor para o filho estava sendo cumprido. Pescador, ao observar a mãe, sentiu-se aliviado por ver o seu querido aluno conseguir dar um passo para uma mudança positiva. Era perceptível que, para a mãe, era a mesma coisa, já que a mesma agradeceu incondicionalmente o Pescador por ajudar, algo que nem o pai do menino teve coragem de fazer. Até um tempo atrás, a mãe do Arnaldo ligava todas as vezes para o Pescador no Dia dos Pais para agradecer. E parafraseando o próprio: “não consigo jogar de volta as estrelas do mar na areia, mas uma que jogo de volta ao mar, faz toda a diferença”. Parabéns pelo podcast e um grande abraço para vocês e para todos os professores desse mundo, que são os verdadeiros heróis da nossa atualidade.
 
Obrigado pelo mini-choro e parabéns ao Pescador! Que história!
 

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Sobre o Gugacast

No Gugacast contamos histórias épicas da vida das pessoas. O programa é apresentado por Guga Mafra, com seu irmão, Rafael Mafra

Segue a gente por aí:

Guga Mafra

Rafael Mafra

Caio Corraini

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Só preencher o formulário e mandar sua história, sugestão ou pedido de conselho.
Sua história está em boas mãos!


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    Ficha técnica:

    Apresentação: Guga Mafra
    Edição: Roberto Oksman de Aragão
    Roteiro: Rafael Mafra
    Produção: Guga Mafra
    Assistente de Produção: Roberto Oksman de Aragão

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