Histórias de Perrengues com o Idioma

By junho 11, 2019Mais Histórias

Lost in Translation

Olá Guga, Rafa, Caio (se estiver) e Convidado de Schrödinger. Tudo beleza?
Minha história é relativamente recente, tão recente que faz parte do presente 🙂
Meu nome também é Gustavo (mas nunca fui chamado de Guga, e quando me chamavam de Gugu eu ficava pistola… sempre fui chamado de Guzz), sou Gerente de Projetos em TI e, exatamente há 1 ano eu fui transferido da filial da minha empresa em São Paulo, para a matriz na França, ao lado de Paris.
(Desculpem a possível falta de acentos, o teclado AZERTY francês é um tanto quanto bizarro…)
Já fico feliz que a história não venha com todos os ‘a’ trocados por ‘q’.
Sempre fui um cara que gostava de idiomas, aprendi inglês desde muito cedo e meu primeiro emprego foi aos 16 anos como professor de inglês para crianças, na mesma escola de idiomas que havia concluído meu curso. Depois acabei estudando espanhol sozinho (Espanhol, não Portuñol, são coisas diferentes!) e isso sempre facilitou minha vida, tanto no trabalho (morei um tempo no Peru graças a isso), quanto em turismo: em todos os lugares que já tinha ido (Américas e Oceania), a comunicação era fácil.
Dado meu gosto por idiomas e o fato de trabalhar em SP em uma empresa de origem francesa, tendo contato diário (em inglês) com meus colegas na matriz, no começo de 2017 decidi que iria aprender francês.
Eu jogava rugby em SP e tinha um colega francês no time, que morava no Brasil há um tempo e dava aulas do seu idioma nativo. Perfeito, troquei ideia, ele tinha disponibilidade pra me dar aulas e começamos. Até perguntei na empresa se havia algum incentivo financeiro para que eu fizesse essas aulas, mas pela política da empresa, esse tipo de “subvenção” só era dado a diretores de alto escalão. Como a vontade de aprender era minha, e o “NÃO” eu já tinha mesmo, nem fiquei chateado com a resposta negativa e segui pagando minhas aulas tranquilamente.
Fiz 3 meses de aula direto e tive que parar, quando minha empresa, a nível global, sofreu um ataque cibernético de ramsomware, daqueles que pedia bitcoins para liberar PCs e servidores infectados. Tivemos que trabalhar vários dias, noites e finais de semana, por algumas semanas, para reestabelecer o normal (se um dia vocês pedirem historias desse tipo, eu conto com mais detalhes),
Mande as histórias. Histórias com temas variados, histórias que não pedimos, sempre ficam guardadas para “Temas aleatórios” ou ensejam a criação de temas para aquelas histórias! E eu adoro ler essas que vem do nada. Elas até furam a fila.
mas isso acabou fazendo com que eu perdesse o ritmo das aulas e desse um tempo nos estudos.
Nunca havia tido nenhum contato com o idioma francês antes – as mídias e a cultura pop francesa não são tão ricas, ou nem chegam tanto no Brasil – no máximo conhecia “Alors on danse” do Stromae (aquela do “Afoga o Ganso”), e o começo das aulas foi um tanto quanto horripilante. Já viram O SISTEMA NUMÉRICO FRANCÊS??? Ele torna a operação mais básica de um idioma, a contagem, uma equação mental a ser resolvida em alguns segundos durante uma conversação.
Acredito que o Guga e/ou o Rafael possuam uma noção de francês, pois já comentaram algo do tipo em algum episódio que não sei precisar. Mas dou alguns exemplos básicos para os ouvintes sobre a total e completa falta de noção e excesso de lógicas dos compatriotas de Napoleão (há controvérsias que ele era italiano, pois nasceu na época da negociação entre Itália e França pela Córsega – ouçam o NerdCast sobre o baixinho gordinho!):
Fora uma exceção ou outra, vai tudo bem do 1 ao 69 (soixante-neuf, leia-se “suassante-nof”). Quando chega no 70, o que esperamos? Septante, certo?
Certo na Bélgica, porque na França, é SOIXANTE-DIS. Isso mesmo, “Sessenta e dez”. Da primeira vez que ouvi isso, lembrei imediatamente do Salcifufu – ou era o Papai Papudo? – (Que horas são criançada? Cinco e Sessenta!)
Parabéns pela lembrança do Salcifufu, mas era o Papai Papudo.
E segue, 71 é sessenta e onze, 72 é sessenta e doze… E você fala “BELEZA, já to dominando a parada”…
78 é Sessenta e dezoito, 79 é Sessenta e dezenove… LOGICAMENTE 80 é… Sessenta e vinte!
ERRADO!
Quatre-vingts (catre van). QUATRO VINTES.
81 é quatro vintes E um, 82 é quatro vinte dois e assim por diante.
88 é quatro vinte oito, 89 é quatro vinte nove. E adivinhem como é o 90?
Exatamente! QUATRO VINTE DEZ! (Nessa hora eu vejo o meme do Patrick Stewart fazendo o Facepalm)
E não para por ai! 91 é Quatro vinte ONZE, 92 é Quatro vinte DOZE…
99 é Quatro vinte dezenove!
Imagina quando alguém te fala o preço de algo, tipo 78,99 €… Soixant-dix-huit Euro quatre-vingts-dix-neuf centimes (suassan-dizuit eurÔ catre-van-dis-nof santimes). Precisa ser rápido em cálculos, não é pra qualquer um não.
É verdade. É muito difícil fazer tudo isso de cabeça, ainda mais ouvindo e tendo que dar dinheiro pra pessoa.
Aí chega no 100 e você imagina: CINCO VINTES? QUATRO VINTE-E-CINCOS?
Não, é CENT (san) mesmo.
Quando eu questionei meu professor, ele falou que ele entende que é complicado pra quem não é francês, mas que pra eles, é natural. Quando você é criança na França, você aprende que o número 99 se chama “catre-van-dis-nof”, do mesmo jeito que ele poderia se chamar “Jean-Pierre”. Esse é O NOME daquele número. Só mais tarde, quando a criança desenvolve o pensamento lógico, que ela entende isso, mas até aí seu cérebro já consolidou a informação, e Voilà!
Mas (depois de algumas páginas de contextualização), esse não é o objetivo da história! Foi mal…
Aprendi pouquíssimo nas minhas aulas, nada muito além de números e comunicação básica, como o início do aprendizado de qualquer idioma.
Contei para todo mundo (inclusive meus colegas da França) que tinha começado a fazer aulas, eles acharam legal e se disponibilizaram para ajudar a praticar, aquilo tudo…
No entanto, um tempinho depois, eu e meu chefe fomos para umas reuniões na matriz da empresa na França e eu não tinha ainda avançado muito no aprendizado (lembram que eu parei por causa do ramsonware?)
Foi a primeira vez que fui à Europa e a um país no qual eu não falava o idioma. E, apesar de ser também uma língua latina, isso não facilita nada.
Eu e o meu chefe nos comunicamos em inglês com os nativos, seja na chegada ao aeroporto, taxi, hotel, etc… Pra comprar algo pra comer já foi um pouco mais complicado, mas a mímica ajudava, normal (sabe aquele papo que francês não gosta/não sabe de falar inglês? REAL. Exceto os que trabalham e multinacionais, que precisam mesmo saber inglês e ainda assim, o pessoal mais novo, em geral)
Isso é verdade, mas desenvolvi um sistema. Sempre perguntar se a pessoa fala inglês ou espanhol. Assim, você deixa claro que não é obrigação de ninguém falar qualquer idioma, muito menos o inglês.
Reuniões em inglês na empresa, tudo certo… Fiquei sabendo que um colega, o Robin (meu “equivalente” na matriz, em relação a área de atuação) havia acabado de ser promovido para gerente de sua equipe, achei bem legal (guardem essa info!) e a semana passou tranquila, no geral.
Cinco minutos antes de ir embora da França, falei para o Robin, recém promovido que, se ele tivesse dificuldade em encontrar alguém para seu antigo posto e quisesse me considerar, eu toparia. Ele me olhou com cara de espanto e me disse, incrédulo: “SERIO? Você sairia do Brasil para morar aqui na França?”. E eu mandei um efusivo “OUI!!!”
Eu falei pra o Robin que AINDA não tinha nível suficiente para trabalhar em francês, mas ele me disse que como era uma posição central, onde teria contato com todos os países nos quais temos operação, isso não seria um problema. Aliás, seria estratégico, pois falo Inglês, Espanhol E PORTUGUÊS 🙂
Ele perguntou o que minha família pensaria disso (sou casado e tenho 3 filhos, dois dos quais são gêmeos e tinham 1 aninho na época) e eu respondi na lata: “Não preciso NEM perguntar, sei que a resposta é positiva!”
Ele falou que ia começar a mexer os pauzinhos e me falaria…
No caminho do aeroporto já liguei pra minha esposa, expliquei a conversa e perguntei: “E aí? Você viria, né?????”
A gente sempre conversou sobre morar fora, mas nunca havia tido a oportunidade, com tudo certinho com trabalho garantido, como precisaria ser – não tenho idade (38), perfil nem estrutura familiar pra partir pra algum lugar sem que tudo fosse bem estruturado. Mas essa era uma oportunidade REAL, numa empresa que EU já conhecia, que já ME conhecia, documentação, contrato de trabalho, etc… E a resposta dela obviamente foi positiva.
Longos 3 meses se passaram até que chegou a proposta oficial, apresentada pelo Diretor de RH do Brasil. Fizemos algumas reuniões, definimos tudo, e em maio de 2018 (RAFAEL! O que mais aconteceu em maio de 2018 no Brasil E na França?)
Só o Gustavo tem garantia de que terá as respostas e olhe lá.
eu cheguei (inicialmente sozinho) em Paris. A missão era começar a trabalhar e procurar um apartamento para vir com a família, que chegaria 1 mês depois.
No primeiro dia de trabalho, todo mundo me dando as boas vindas (tudo em inglês ainda), quando a diretora (chefe do Robin) fala pra todo mundo: “Ninguém mais fala com o Guzz em um idioma que não seja FRANCÊS!”
OPA! Isso não era o combinado! Eu ia SIM estudar francês (estava na proposta de trabalho um curso de francês), e a imersão facilitaria… Mas NO PRIMEIRO DIA ela proíbe todo mundo de falar inglês comigo???
Todo mundo via que não tinha jeito, e a comunicação no escritório foi em inglês por um bom tempo (exceto quando ela estava por perto), mas cada vez mais eu me forçava e forçava o pessoal a falar francês comigo.
O problema é que na primeira dificuldade, já rolava o switch pro inglês…
Até um dia de novembro/2018 (6 meses após minha chegada) que o Robin falou que eu ja conseguia me comunicar em francês, e que precisaria parar de mudar rapidamente pro inglês. Ao invés disso, eu precisava insistir, usar palavras simples, errar. E foi aí que eu comecei a desenvolver melhor o idioma. Errando muito e persistindo.
Ta certo que as gafes acontecem TODO o tempo, como o dia que eu estava com dor no pescoço (cou, em francês – pronuncia-se CU, como o nome popular do ânus mesmo) pronunciei algo como cul (o CU/ÂNUS propriamente dito) na frente de todos os colegas. Todos riram e eu fiquei com cara de gol contra.
Cara de gol contra é ótimo.
Ou da vez que fui de carro pra Bruxelas em um feriado e estava contando pro pessoal, me esforçando bastante em francês, falando que estava impressionado como a estrada era boa e tal…
Aí um cara vem e me pergunta: “Comment tu as trouvé Bruxelles?”
Vale explicar que o verbo “Trouver” significa “ACHAR” ou “ENCONTRAR”. A pergunta do cara deve ser traduzida como “O que você achou de Bruxelas?”
Mas na minha cabeça, a unica tradução de “Trouver” encontrada no momento foi “Encontrar”
Sem cerimônia nenhuma, confiante, enchi o peito e respondi: “Par GPS!”
Ou seja, o cara perguntou “O que eu achei de Bruxelas”, eu entendi que ele perguntou “COMO eu achei Bruxelas”. E eu, fazendo um shrug ¯\_(ツ)_/¯, respondi que foi com o GPS!
E a gafe reversa, então? Essa é a mais legal, e serve como vingança:
A gente sabe que francês não fala bem inglês, certo? E parte disso é que eles não fazem nenhum esforço pra pronunciar bem o inglês (ou qualquer que seja o idioma). Um dia um colega falou pra mim, em inglês, que ele tinha felicidade dentro dele: “I have happiness inside me”
MAS, o francês NUNCA pronuncia o H, ele é mudo. Então, a frase que eu escutei foi:
“I HAVE A PENIS INSIDE ME!”
Eu não entendi o que ele queria dizer, e pedi pra ele repetir: I HAVE A PENIS INSIDE ME!
Dessa vez eu entendi mas não compreendi. Minha cara dizia isso e o cara falava:
A PENIS. INSIDE ME.
hahahahahaha
E tentava gesticular algo que não dizia isso…
Eu mandei em francês mesmo: Pardon, je ne comprends pas.
APPY. I’M APPY! I HAVE APPYNES INSIDE ME.
Hoje meu nível de francês já melhorou um pouco, mas ainda longe de estar fluente (acho que ainda vai pelo menos mais 1 ano), e as gafes não param. Todo dia é um desafio diferente, mas posso dizer que foi o ano de maior aprendizado na minha vida. Desde que cheguei, TODOS os dias aprendi alguma coisa diferente, seja simples ou complexa.
Bom, é isso pessoal. Não vou pedir desculpas pelo email longo – pois o Guga sempre fala que esses que são legais – mas achei importante contextualizar antes de contar tudo.
Continuem com o bom trabalho!
Um grande abraço
 

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