Enviado Por:Murilo

Da Lama ao Caos

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Olá! Guga, Rafa, talvez Caio ou Bia (essa mulher é demais! Amo!) e possível convidado. Me chamo Murilo, de Santa Cruz do Sul, RS (Guga, sinta-se a vontade para citar cidades de colonização alemã do centro do estado).

Sou um empreendedor de 33 anos no ramo de padaria e confeitaria de uma longa geração de família trabalhando com comida.

Primeiramente, uma indignação sobre as histórias de aniversário.

Me soou como uma não-história pois a festa não aconteceu e eu fiquei incrédulo. Eu fui uma criança que avisou no sábado de manhã que tinha convidado minha turma da pré-escola para a minha festa. Minha mãe, minha madrinha e meu pai fizeram uma correria gigante e a festinha saiu no domingo e pelo menos umas dez crianças apareceram e foi incrível!

Venho hoje aqui para contar a história de três crianças endiabradas, soltas em uma pequena cidade industrial enquanto os adultos preparavam o buffet do casamento de um dos tios. Os anjos da guarda desses pirralhos devem ter pedido demissão após aquele dia infernal de verão. Dia esse em que passamos os três, por lugares tão perigosos, que poderíamos ter morrido pelo menos umas seis vezes. Saudades, anos 90…

Éramos três capetas em forma de guri. Podem mudar os nomes como desejarem. Eu, meu irmão Rafael e meu primo Guilherme, todos com pouco mais de um ano de diferença de idade.

Todos entre 8 e 11 anos. Todos os verões e qualquer feriadão eram passados na casa da minha avó, no interior de uma cidade mineradora. Mais precisamente onde ficavam as minas, de calcário e argilas.

Esse verão, em 1997, seria marcado pelo casamento de um tio com sua amiga de infância e primeira namorada. Obviamente tudo marcado para logo antes do Natal porque minha família adora fazer banquetes enormes sempre que possível e festejar o máximo de tempo possível.

Como mencionado anteriormente, todos foram envolvidos naquele tsunami de tarefas de cozinha para um buffet pra mais de cem pessoas. Durante o tumulto, ninguém ficou com a tarefa de cuidar daquelas crianças selvagens e famintas de aventura regadas a refrigerante barato.

Soltos na pequena cidade e com o açúcar correndo nas veias, fomos os três determinados a explorar aquele lugar, sem adultos por perto, em pleno sábado à tarde quando não restava ninguém nas fábricas e minas. A aventura perfeita, só de meninos, pois as meninas ficaram com as tarefas domésticas, percebo agora a injustiça disso.

Primeira parada, fábrica de processamento de argila. Subimos no segundo andar da fábrica e saltávamos para baixo pelo menos uns quatro metros em uma pequena montanha de pó bem fino que amortecida nossa queda com um toque seco, aveludado e com gravidade lunar. Saíamos na parte de baixo, meio que nadando naquele pó ultra fino, salvos e completamente empoeirados. Lá pelo décimo pulo, meu irmão viu uma colmeia de abelhas no canto do telhado daquele enorme pavilhão, prontamente acertada com um pedra, sem o menor tipo de aviso de que iria fazer aquilo. Uma nuvem de abelhas nos perseguiu, enquanto corríamos e gritávamos por nossas vidas, até sairmos ao ar livre no final do pavilhão.

Segundo parada: topo da fábrica, onde os caminhões eram carregados com o mesmo pó de argila.

Recobrados do susto e ilesos por milagre, resolvemos subir para saber como era por dentro das enormes estruturas em forma de funil, que enchiam os caminhões que paravam embaixo dela, pelo menos uns 15 metros de altura, subindo por uma escada de mão, pela lateral externa da torre (alô CIPA e conselho tutelar!) Quando chegamos ao topo, eu que ia na frente sempre, dei de cara com a maior coruja que eu já vi na vida, pelo menos metade do meu tamanho e peso infantis, com um olhar de desafio e pelo menos três filhotes nas suas costas. Paralisei na hora, sob os protestos e gritos dos meus cansados e suados parceiros de aventura. Ela deu um passo de ameaça na minha direção e por um milésimo de segundo, meu aperto na escada de mão afrouxou, mas logo me dei conta da altura da queda.

Alcei meu corpo pra dentro e a mamãe coruja foi mais pro canto com os filhotes, me deixando passar. Ela provavelmente já estava acostumada com algum trabalhador dali. Só se assustou com aquele filhote de humano, completamente imundo. Avisei minha party sobre o perigo e entramos para dentro do grande funil de paredes de metal, uma circunferência de pelo menos uns 8 metros, com uma forma côncava onde quando aberto fazia descer aquela poeira fina. No momento em que tocamos os pés dentro descobrimos que o declive, liso de metal era bem mais acentuado do que imaginamos, começamos a afundar em câmera lenta naquela poeira movediça, nos afastando da escada, logo percebi a cagada que tinha feito, íamos acabar soterrados no fundo do funil, que devia ter bem mais de cinco metros. Gritei pra nadarem contra a corrente lenta e inexorável e assim o fizemos, dando as mãos em uma corrente conseguimos agarrar a escada e fugir daquela armadilha.

Imundos e assustados, nos demos conta do nosso estado e livramento. Porque não ir se lavar na água barrenta da mina de onde vinha a argila, para aí sim dar a aventura por encerrada, soou apropriado…

Última parada: mina abandonada devido a perfuração de lençol freático.

Após uma pequena distração de uma hora jogando bolas de barro uns nos outros, resolvemos tomar banho naquela piscina estranha do meio da mina, com sua borda de água barrenta e água de um azul incrível no meio, quase um cenário de planeta alienígena. Quando o lençol freático é atingido, além de poder causar a morte de quem estiver no fundo da mina, acaba desestabilizando toda ela e tornando um risco colocar caminhões pesados num ambiente que pode virar lama movediça a qualquer momento. Era na borda daquele buraco que ignorávamos a profundidade, começamos a tomar banho e tirar a camuflagem anti-Predador. Nadar naquele lugar era demais, meio metro de água e um textura gelatinosa nos mantinha flutuando sem tocar o fundo, até que meu primo cometeu o erro de sair da parte barrenta e pisar sobre o buraco da mina com sua água azul indicando profundidade, logo que ele perdeu sustentação eu fui e consegui pegar a mão dele enquanto ele afundou no buraco gritando pra meu irmão ajudar, ele, o único que não sabia nadar ainda. Ele pulou e corajosamente e nos puxou de volta à segurança da lama.

Fomos para o local da festa, um caminhão tirou um fino do meu irmão na beira da estrada, mas chegamos para choque, indignação, risadas e apenas uma foto perdida no tempo, três crianças cobertas de argila colorida em todo o corpo, visivelmente exaustos e abalados. Mas exultantes com a aventura. Tentei estrangular uma criança em uma briga durante a festa, foi um dia muito agitado…

Desculpem pela história longa, espero que tenham gostado e sentido um pouco de agonia, obrigado, espero que entre no programa. Tchau!

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