Enviado Por:Cintia Oller Cespedes

Aventuras na Reserva Ambiental

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Olá Guga, Rafa e possível convidado (espero que seja o Caio, amo a voz e o jeitinho do menino de Mococa) .

Vim contar minha história de aventura!

Meu nome é Cintia, sou de São Paulo, mas essa história se passou na Região do Vale do Ribeira, próximo a cidade de Registro (Guga, isso NÃO É uma deixa pra você, só pare com isso, por favor!… hahahaha).

Eu sou formada em Gestão Ambiental e em 2012, quando eu estava no último ano da faculdade, por alguma razão achei que seria útil para o meu currículo fazer um curso de levantamento de fauna. Não lembro exatamente como fiquei sabendo desse curso, devo ter recebido algum e-mail aleatório, não conhecia ninguém que iria participar, organizar ou ministrar e o curso seria em uma Reserva de Proteção Ambiental, ou seja, no meio do mato.

Lógico que eu não iria pro meio do mato sozinha com estranhos, então convenci dois amigos a irem comigo, Fairah e Eliano, não precisa mudar os nomes porque a história não compromete ninguém, e convenhamos… Fairah e Eliano são nomes bem legais e diferentões… Mas se quiserem podem mudar, sempre me divirto com as ideias de vocês! Só uma dica, caso resolvam usar Fairah, apesar do H no final, a sílaba tônica do nome dela é o FA, então se diz Faaaairah.

O curso seria durante um fim de semana e começaria no sábado bem cedinho, então teríamos que sair na sexta a noite após o trabalho, dormir por lá para estarmos prontos às 7h da manhã para procurar rastros de onça-parda, também conhecida como suçuarana, cobras cascavel, aracnídeos venenosos, entre outros animais fofinhos e inofensivos como estes.  Pois bem, a aventura começa já no caminho de ida, pois decidimos ir no carro da Fairah, um celtinha prata maravilhoso que nos proporcionou muitas outras aventuras, mas o detalhe é que a Fah era recém habilitada e teríamos que pegar a Rodovia Régis Bittencourt, mais conhecida como rodovia da morte.

A Fairah, apesar de recém habilitada, dirigia muito bem e era super confiante, o problema maior nessa estrada era a quantidade de caminhões que não respeitam os limites de velocidade e pra ajudar uma chuva torrencial caía enquanto estávamos na famosa Serra do Cafezal, trecho mais perigoso da rodovia. Caras, foi tenso demais! Os caminhões com aqueles farolzões na nossa traseira, com aquelas buzinas assustadoras que parecem mais gritos do manhoso fake.

A tal reserva para qual estávamos indo ficava literalmente no meio do mato, não era possível de ser localizada por GPS comum, e o caminho até lá era por aquelas estradinhas de terra… Então, o biólogo que era o organizador e instrutor do curso sugeriu nos encontrarmos em uma rotatória numa cidadezinha (que já não me lembro qual era) ali do Vale do Ribeira e de lá ele nos guiaria até o local. Chegamos na rotatória já era mais de meia-noite, não tinha ninguém, nenhuma alma, nenhum doguinho caramelo, nada… Só a chuva. Mandei uma mensagem pro biólogo que prontamente me respondeu que nos encontraria lá em alguns minutos. Ficamos aguardando com o carro ligado, prontos para sair acelerando caso qualquer pessoa ou coisa estranha aparecesse… O biólogo chegou, nem desceu do carro, só abaixou o vidro e gritou “bora lá?’” e começamos a seguir o carro dele. Alguns minutos pela cidadezinha e logo começamos a adentrar uma floresta, estrada de terra, toda esburacada, cheia de poças enormes devido a chuvarada daquela noite, o caminho foi ficando cada vez mais assustador, vira aqui, sobe ali, nenhuma casa, poste de luz, nada, somente as luzes dos faróis dos carros. Eis que o Eliano me pergunta “amiga, de onde você conhece esse cara?” e eu “na verdade, eu não conheço esse cara”… Os dois me olharam com olhos arregalados e ficamos em silêncio alguns segundos, e ele diz “quais as chances dele pegar nossos rins?”… Rimos, de nervoso, silêncio de novo, troca de olhares… E a Fairah “pessoal, eu estou ficando com medo, está demorando demais pra chegar”, então eu falei “calma gente, eu vi o currículo lattes dele”, o Eliano só olhou e disse “Fairah, quão rápido você consegue manobrar e voltar?” Já pensando em um plano de fuga, tipo “na próxima curva você manobra e acelera” mas aí chegamos na Reserva, ainda estávamos desconfiados, mas a placa no portão tinha o mesmo nome do anunciado no flyer do curso, e isso foi o suficiente para nos acalmar um pouco.

Por ser uma reserva para proteção da vida silvestre, não podia ter luz elétrica, então chegamos naquele breu, somente com a luz da lanterna do biólogo que nos guiou até uma cabana que tinha somente alguns beliches, e disse “vocês dormem aqui, nos encontramos amanhã às 7h”. Nós estávamos morrendo de fome, sede e vontade de ir ao banheiro. Então perguntei “moço, onde fica o banheiro?” ele só mirou a lanterna na direção e disse “ali”. Era um tanto afastado, uma casinha… Tratava-se de um banheirinho comunitário, tinha somente uma privada e um chuveiro, a pia ficava do lado de fora, tipo aqueles tanques com torneirinha de plástico branca e preta, bem roots. Tínhamos planos de tomar banho e jantar quando chegássemos no local, mas só fizemos xixi e fomos dormir nas beliches. Não perdemos os rins.

Na manhã seguinte acordamos e assim que saímos da cabana fomos presenteados por uma vista espetacular, estonteante, magnífica… O lugar era lindo demais, ficamos felizes! A Reserva não podia ter nada que interferisse na vida silvestre, era um local destinado unicamente para estudos e pesquisas científicas, não podia ser explorado comercialmente, nem turisticamente, então era bem preservado e tudo muito simples, não tinha luz elétrica, nem água encanada, nem coleta de esgoto. O banheirinho coletivo era ligado a um poço artesiano e os dejetos eram enviados para um biodigestor que gerava um pouco de energia que era usada para aquecer o chuveiro. Todo lixo produzido ali, o que não fosse passível de compostagem, deveria ser levado de volta pra cidade para um destino correto e cada um era responsável por seu lixo. Os únicos moradores do local eram Leandro, caseiro e mateiro (não sei se esse termo é correto, mas era assim que ele era chamado) e sua cachorrinha Mel, adorava carinho na barriga e no pescoço e eu me deliciei acariciando aquela coisa fofa.

O Leandro era o cara que manjava tudo ali naquele local, uma graça de menino, simpático e atencioso, nos explicava tudo. A função de mateiro é abrir trilhas (favor ler naquele tom Gugacast). Como a reserva não podia ser explorada, não haviam trilhas de caminhada, era só mata fechada, e para o nosso curso seria necessário que o Leandro abrisse trilhas para nós, tem um jeito certo de fazer isso, precisa conhecer o terreno, não é simplesmente sair cortando o mato do caminho.

No sábado de manhã tivemos a parte teórica do curso e depois do almoço fomos para a parte prática, ou seja, nos embrenhar no meio do mato. Haviam outras pessoas, cerca de 12 que já haviam chegado no local antes de nós, mas estavam acampados e não na cabana. A parte prática era a que todos aguardavam, estávamos eufóricos, aprendemos como procurar rastros e logo encontramos pegadas de suçuarana, o que me deixou com um pouco de medo, pois eram pegadas enormes e aparentemente frescas. Encontramos filhotes de Jararaca, espécie muito comum na região, um adendo: a picada de filhote é mais perigosa do que de adultos, pois os bebês cobras ainda não sabem dosar o veneno, sem falar do risco da mãe estar por perto só preparando o bote. Também vimos muitos tipos de aranhas, rastros de bugio-ruivo e macaco-prego e por aí vai.

A região era bem preservada e a mata bem fechada, o tempo todo o Leandro ia abrindo caminho para nós, na companhia da sua fiel escudeira Mel. Ele nos guiava, dizendo onde não pisar ou não colocar a mão, conforme caminhávamos sentíamos a densidade da floresta aumentar e uma presença maior dos animais, eu estava ficando com medo.

Depois de algumas horas caminhando e explorando chegamos em uma área mais alta e um pouco mais aberta, essa etapa do curso já estava chegando no fim, devia ser por volta de umas 4h da tarde e iniciaríamos o caminho de volta, que não seria o mesmo da ida. Nessa parte da trilha, haviam algumas rochas, uma parte alagada, a vegetação já era um pouco diferente. O guia sinalizou um caminho um tanto perigoso, de uma lado rochas do outro penhasco e a passagem bem curtinha, era bom segurar nas rochas na hora de passar, ele resolveu ir na frente para mostrar como fazer e ainda avisou, “pessoal, façam silêncio, pois neste rochedo há um enorme vespeiro, vocês não vão querer ser picados por essas vespas”. Ficamos apreensivos, ele foi primeiro para mostrar como passar, o biólogo foi em seguida, a Fairah foi, um por um foi indo… Até que um dos meninos soltou um grito ao passar, num primeiro momento achamos que havia sido proposital, mas depois descobrimos que ele havia sido picado por uma vespa, mas ao gritar ele despertou a fúria das vespas que começaram a nos atacar. Corremos cada um para um lado, de longe eu vi minha amiga Fairah sendo picada e sabia que ela tem alergia, fiquei muito preocupada, mas não conseguia chegar até ela, era uma nuvem preta de insetos vindo pra cima.

A maioria já havia passado pelo vespeiro, ficamos eu, o Eliano e mais 3 meninos. As vespas atacaram mais o outro grupo, nós levamos algumas picadas, mas ninguém ficou em estado grave. Já aquele menino que foi o primeiro a ser atacado, precisou ir para o hospital.

Não tínhamos como voltar por aquele lugar, precisávamos achar outro caminho, mas sem o guia era muito difícil e perigoso. Começamos a pensar o que fazer, logo começaria escurecer, então fomos para a parte mais aberta tentar enxergar algum caminho, mas só haviam rochas, morros, árvores. Andávamos em fila indiana, eu era a segunda da fila e vi o momento em que uma cobra jararaca atacou o primeiro da fila, por sorte só pegou na calça, que chegou a rasgar. Foi muita sorte! E aquilo nos despertou um misto de adrenalina com desespero que nos fez começar a andar cada vez mais rápido sem saber pra onde estávamos indo, só queríamos sair dali e ficar parados nos trazia uma sensação muito ruim.

Olhávamos ao redor, não sabíamos o que fazer, já estava escurecendo… Começávamos a planejar como passar a noite ali, como iríamos nos proteger dos animais. Ninguém sabia montar abrigo, não tínhamos experiência alguma de sobrevivência na mata. Todo mundo já estava com a lagriminha no canto do olho, eis que aparece a Mel, siiimmm, a cachorrinha!!! Ela surgiu do nada, deu uma cheirada na gente e sumiu no mato de novo, daqui a pouco voltou deu outra cheirada e sumiu de novo, fez isso diversas vezes, depois entendemos que ela estava guiando o guia até nós, que nos encontrou e abriu o caminho de volta, nessa hora já estava escuro, ele tinha um facão e uma lanterna que nos levou até uma estradinha e depois de algum tempo de caminhada estávamos de volta na reserva.

Eu gosto de pensar que a minha troca de carinhos com a Mel na parte da manhã foi um fator determinante para ela nos encontrar, o Leandro contou depois que ela tem mesmo esse instinto e que precisa de um cheiro para seguir, então não sei se de fato fez diferença, mas na minha memória e no meu coração sempre vai ser essa história.

De volta a reserva, vimos que a Fah estava bem, um pouco inchada e várias picadas, principalmente na cabeça, mas bem… Ela tinha levado antialérgico!

Estávamos lá descansando e comentando como tivemos sorte, eis que chega o biólogo chamando a gente pra tarefa da noite, que era observar anfíbios no lago… Todo mundo com aquela cara de desânimo, “é serio, cara?” e ele todo animadão, “vamos lá pessoal, o lago é aqui atrás, só vamos observar um pouco e já voltamos”, nos convenceu, o lago era pertinho mesmo, estávamos a observar os sapos e fomos atacados por formigas lava-pé… “Ah vá pro diabo esse curso!” exclamou alguém da turma…

Voltamos correndo pra reserva, todo mundo tentando molhar os pés no chuveiro e no tanque da torneirinha de plástico. Foi péssimo. No domingo de manhã ainda teríamos que observar aves. Assim fizemos e depois pegamos o caminho de volta sem novas aventuras!

Até hoje pergunto pra Fairah e pro Eliano como eu consegui convencê-los a ir pro meio do mato com estranhos e ainda pagar por isso! Por fim, nunca utilizamos o que aprendemos neste curso, quer dizer, nunca utilizamos profissionalmente, mas, eu pelo menos, passei a ter bem mais cuidado ao me enfiar em trilhas ou meios de mato qualquer.

Um abraço pra vocês e saibam que se quiserem fazer levantamento de fauna profissionalmente é necessário ser biólogo e especialista na área, um curso de fim de semana não te habilita a assinar esse tipo de estudo, fica a dica!

Beijos,

Cintia

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