Enviado Por:Thiago Lindemann da Silva

Adolescentes em Tapera

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Olá, Guga, Rafa, Caio, convidados e, quem sabe, a melhor participante de podcast de todos os tempos, Bia Fiorotto.

Mantenham os nomes, por favor!

Quando soube que vocês precisavam de histórias sobre decisões idiotas, lembrei da minha adolescência, quando as escolhas imbecis são mais comuns que as sensatas.

Meu nome é Thiago e sou de Porto Alegre. Quando tinha 15 anos, meu amigo, Lorenzo, organizou uma viagem comigo e outros amigos para sua cidade natal: Tapera (RS). O que tem em Tapera? Nada. É um município minúsculo com incríveis 10 mil habitantes.

Pensando em retrospecto, viajar a um lugar tão vazio era chamativo para nós justamente por não ter nada nem ninguém. O sentimento de liberdade para fazer qualquer coisa nos atraía muito.
Chegando lá, nós conhecemos pessoalmente o Thobias, um amigo de infância de Lorenzo e morador de Tapera. Jogando conversa fora, Thobias nos disse que os pais dele iriam sair de casa por um bom tempo naquela noite, voltando só de madrugada. Neste momento, tivemos nossa primeira decisão idiota: “vamos comprar bebida e fazer uma noite de jogos na casa dele!” Notem que éramos menores de idade e os pais de nosso querido taperense nunca iriam permitir tal evento. Mesmo assim, decidimos realizar a noitada.

Como nunca havíamos comprado bebidas sozinhos, ficamos apreensivos de sermos pegos no supermercado pela caixa, que poderia nos pedir carteira de identidade. Então concluímos que a maneira menos arriscada de fazer a compra seria deixar alguém de nosso grupo o mais “adulto” possível. Escolhemos o Lorenzo para interpretar o maior de idade, porque era alto e já tinha a voz grossa. Nós selecionamos cada peça de roupa que ele iria vestir: botas pretas, calças jeans, jaqueta e óculos escuros. Treinamos algumas falas com ele (forçando ainda mais a voz grossa) e ensaiamos quais seriam suas respostas se pedissem a identidade. No fim, como devem imaginar, a caixa nem ligou para ele e deixou comprar todas as latinhas e garrafas que desejasse.

Estava tudo pronto: baralhos no bolso, bebidas compradas e os pais do Thobias já tinham ido embora. Entramos na casa e fomos direto para a sala. Jogamos por horas um jogo de carta que não me recordo o nome, mas o objetivo era confundir os adversários para eles errarem a jogada. Quem errasse, bebia um “shot”. Passadas várias rodadas e latinhas, ficamos muito bêbados e alegres. Nós contávamos histórias, zoávamos uns aos outros e o Panda (apelido real de nosso amigo) ficava na ponta da mesa conversando pelo WhatsApp com uma colega, na esperança de ter algo a mais com ela. Estávamos toda hora rindo e bebendo, até que de repente: *TOC TOC TOC*.

Eram os pais do nosso amigo que batiam na porta, pois haviam voltado mais cedo. Todas as risadas e gritos se calaram num instante. Nossas expressões, outrora sorridentes, ficaram tensas. Por alguns segundos, trocamos olhares, sem saber o que fazer. Então, nos voltamos para o Thobias, que, com olhar fixo e sério, se levantou e disse: “se escondam”. Ele foi em direção à porta da casa, enquanto nós tomávamos a nossa segunda decisão imbecil da noite: se esgueirar em camas, entrar em armários e se encolher nos cantos da dispensa.

Pois é, gente, ideia de bêbado. No fim, eu e o Panda nos escondemos embaixo da cama dos pais do anfitrião. Fiquei muito tenso ao ouvir a voz da mãe de Thobias, mas logo toda minha atenção foi voltada para o Panda, que ainda digitava no celular. “Desliga isso, cara!” – disse pra ele. “Tô falando com ela, peraí” – respondeu, ainda rindo da situação.

A conversa do taperense com seus pais ficava cada vez mais próxima, até que vi os pés de um deles. Convenci meu amigo de desligar o celular e ficar quieto. Continuamos um bom tempo assim até ouvir o Thobias suspirar: “olha só, pai, vai sair gente de tudo que é canto. São meus amigos. Pode sair, galera ”.

Fiquei aliviado e ao mesmo tempo constrangido: o problema tinha sido resolvido, pois nós podíamos sair dos esconderijos, mas precisávamos interagir com os donos da casa. Meio sem graça, me encolhi olhando para baixo, enquanto os cumprimentava. Todos fizeram o mesmo e se dirigiram até a saída. A mãe pareceu furiosa, mas não falou nada. Fomos à rua, com exceção, é claro, de nosso amigo Thobias, que ficaria em casa e provavelmente levaria um sermão

Mas a noite é uma criança, e ela ainda não tinha acabado. Antes de sairmos, fizemos questão de pegar as bebidas. Assim, passamos mais algumas horas andando à toa nas ruas vazias, o que era perfeitamente seguro em uma cidade pequena. Paramos na beira de um canal para beber. De repente, ao longe, enxergamos alguém vindo: era o Thobias, o herói que se sacrificou para nos salvar. Ou não: segundo ele, seu pai aceitou na boa a pequena infração do filho e os dois até beberam um pouco juntos. Depois, deixou o garoto voltar para seus amigos.

Sentei-me na ponta do grupo e, olhando para todos, percebi que aquela cena estava perfeita para uma foto. Então, peguei meu celular e gritei “olhem pra cá! ” Apertei para fotografar e a luz do flash piscou. Após a foto ser tirada, o flash piscou de novo. Achei estranho, até entender: não era o flash da câmera, era a luz de um farol de moto, logo à nossa frente.

Mais tarde descobri que é comum nas noites de cidades pequenas acontecerem “patrulhas noturnas”, em que guardas de moto vigiam as ruas em busca de delitos. Diante daquela situação, todos concluímos que aquele vigia não ficaria nada feliz em saber que menores de idade estavam bebendo sozinhos na rua. Assim, em instantes, nós tomamos nossa terceira decisão idiota: fugir.

O grupo inteiro se levantou num lapso de adrenalina e subiu a lomba. Lembro de todos os cachorros das casas vizinhas latindo pra gente. A cena de nossa corrida tropeçante, com os latidos em volta e a luz branca atrás de nós me fez sentir em uma fuga de prisão. Na verdade, era só uns adolescentes correndo de um guarda com uma moto bem devagar.

Nunca soube se o vigia desistiu de nos perseguir ou se de fato havíamos conseguido despistá-lo. No fim, após subir toda a lomba e atravessar algumas esquinas, lembro de pararmos exaustos, enquanto o Panda ainda nos alcançava e tentava falar algo. Ele chegou até nós, botou as mãos no joelho e, todo esbaforido, fez a última decisão imbecil da noite:
– A gente… precisa… a gente precisa voltar. A bebida ficou lá!

É isso, personas. O final vou deixar na imaginação de vocês. Espero que tenham gostado da história. Houve mais algumas mini aventuras em outras viagens para Tapera, mas essa foi a mais memorável. Um beijo para vocês e a todos taperenses!

 

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