Enviado Por:Jobson Ernesto Maravilha

A Balada Inabalável

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Olá senhores do Gugacast, meu nome é Jobson, escrevo de São José dos Campos, interior de São Paulo. Troquem os nomes por favor, até porque só lembro com certeza do nome de dois personagens.

Bom, no ano de 2004 eu tinha 19 anos, morava com meus pais e trabalhava como frentista em minha cidade, pensava em estudar mas não sabia que faculdade fazer e nem mesmo via meios de arcar com uma, era tímido, introvertido, mas no trabalho meu desempenho era elogiado e reconhecido pelos proprietários do posto, portanto, naquele ano recebi o convite de auxiliar na inauguração de uma nova filial dessa pequena rede que estava se formando, a função seria a mesma, o salario (infelizmente) também.

Havia, contudo, a promessa de um carro, isso mesmo, um carro, se meu desempenho em treinar os novos frentistas fosse satisfatório e as metas de vendas fossem atingidas. Esse novo posto seria inaugurado em Lorena, cidade a cerca de 100 km de São José, portanto seria necessário me mudar, mas alojamento eles me garantiram. Resumindo, viraram pra um moleque que só tinha uma caiçara (tipo de bicicleta ) e nenhuma ideia do que fazer da vida e ofereceram um carro (UM CARRO) e a oportunidade de morar sozinho, não sei para vocês, mas era a vida em modo tutorial, pelo menos pra mim naquela época… aceitei.

Depois de um dois meses em Lorena, as coisas iam bem, as projeções de vendas eram boas, eu me dava bem com a equipe, o apartamento que o Arnold (gerente/proprietário) alugou para nós era legal e nosso relacionamento era bom, cada vez eu me envolvia e me aprofundava mais nos negócios, estava aprendendo e gostando muito dessa nova vida. Por outro lado, nessa fase, talvez como um ato imbecil de passagem para a vida adulta, comecei a fazer coisas que nunca havia feito antes, beber foi uma delas, socialmente nesse princípio, portanto ainda não havia tomado um verdadeiro porre, mas este não tardaria a vir.

Em minha equipe havia um rapaz da minha idade, chamado Ronald, o Ronald fazia Administração e tocava guitarra em uma banda local, manjava muito de rock e punk rock, era muito gente fina e estávamos nos tornando cada vez mais amigos, mas ainda não havíamos conseguido ir pra uma balada, uma balada de verdade, nenhum de nós tinha carro e nossas caiçaras, tão úteis na plana Lorena, não nos auxiliavam nessa empreitada.

Numa sexta qualquer o Arnold se aproxima e me joga cinco ingressos na mão, o posto havia patrocinado a festa de abertura de uma nova casa de shows, Manguetown Music bar, nunca esquecerei, ocorreria no sábado, a principal atração seria uma banda cover de reggae que eu não conhecia, cover de alguma banda famosa de reggae que eu também nunca havia ouvido falar, afinal, nunca fui fã do gênero, mas pouco importava. Ele não poderia ir, me perguntou se eu queria… vida em modo tutorial de novo. Acionei o Ronald e através do Orkut e ele viabilizou todo o resto.

Daqui pra frente, tal qual o seriado 24 Horas, os eventos serão narrados em horas fechadas e também, tal qual um filme do Tarantino, eles não seguirão na ordem cronológica…

 

Segunda-feira, 7h da manhã

Abrimos o posto, eu, Ronald e mais dois frentistas, ele estava estranho, macambúzio, pensei se seria ressaca, mas logo descartei já que fazia tempo demais e diferente de mim, ele estava acostumado a beber, aguardei mais um pouco, então tentei quebrar o gelo, me virei e perguntei sorrindo:

– Ronaldão, que noite hein cara! Sempre que vocês saem aqui é desse jeito?

Ele levantou os olhos devagar, com o semblante ainda sério e respondeu:

– Jobson, essa foi mesmo a primeira vez que você saiu pra curtir?

Eu respondi que sim e era verdade.

Ele pensou um pouco e tornou a falar.

– Cara, essa foi a noite mais retardada que eu já vi, minha cabeça tá a mil e se eu estou assim, nem imagino você! – e foi atender um carro.

Foi minha vez de ficar reflexivo, tinha achado tudo meio intenso mesmo, mas as coisas são meio assim, ao menos nos filmes e tal, fiquei ali pensando se tinha sido pra tanto…

 

Sábado, 20h

Aguardo na hora marcada em frente ao apartamento, vestindo uma camisa de alguma marca de surf modinha da época e uma calça jeans qualquer, gel no cabelo e perfume. Encosta um Gol azul metálico, daqueles quadrados, turbinado pelo barulho, lá dentro algum rock tocando, eu entro no veículo atrás do banco do carona, que no caso está ocupado por meu amigo Ronald, somos em cinco, todos homens, o carro parte, alguns nomes são ditos, comprimentos rápidos e nossa jornada começa.

 

Domingo 6h

Uma leve luminosidade no céu indica que a noite está acabando finalmente, tudo à minha volta parece meio etéreo, meio desfocado, escuto ao longe as risadas. Agora sei o nome do motorista, Panegírico, o carro é de seu irmão, que faz parte desse grupo também, mas nessa época estava namorando e preferiu não ir. Ele tem vinte e poucos anos, de óculos escuros, em um carro com Insulfilm pesado (até hoje não sei como ele enxergava), balança a cabeça freneticamente no ritmo da música, o Ronald, todo desgrenhado, faz o mesmo ao lado. No banco de trás ao meu lado, Malemolente (parece mais jovem do que nós), com arranhões no rosto e manchas de sangue na frente da camiseta branca, discute animadamente com Dráuzio (minha idade), os dois vangloriando-se de fatos que na minha opinião foram só derrotas.

O carro, que há pouco atravessava uma deserta avenida a cerca de 50 km por hora, não diminui, mas bruscamente começa a desviar-se perigosamente de caixotes, barracas e pessoas. Tenso, percebo, estamos cruzando toda extensão de uma feira livre em avançado processo de montagem, ouço alguns xingos e protestos do lado de fora, mas acho que sou o único, os demais ocupantes, incluindo o motorista, parecem estar alienados aos riscos da situação, pela centésima vez naquela noite um pensamento me ocorre:
– Car*lho, o que eu estou fazendo aqui?

 

Sábado, 21h

O carro para em uma praça no centro de Lorena, não a conhecia ainda, vários grupos de jovens com camisetas pretas conversam animadamente, um ou outro com violões. Tomamos um banco livre próximo do carro, Dráuzio recolhe uns trocados de cada um de nós pra comprar vinho em um bar, perfeitamente classificável como “pé sujo”. Enquanto ele não chega, observo que no centro da praça, um grupo maior senta-se em um grande circulo, no chão, garrafas de bebidas são passadas de mão em mão, um mendigo ( tinha carrinho de sucatas e tudo) enaltece determinada fase do Black Sabbath, discursando com propriedade, sendo ouvido atentamente por jovens, provavelmente universitários. Fico maravilhado com a cena. O vinho chega em uma garrafa de 2 litros de coca cola, claramente reutilizada, copos plásticos são passados, começamos a beber, eu relaxo e começo a socializar um pouco com os demais.

Depois de um tempo, uma viatura da PM percorre todo perímetro da praça, tenho a impressão de que eles diminuem ainda mais a velocidade ao nosso lado e nos encaram demoradamente. Percebo que todos os outros ficam excessivamente tensos, acho meio estranho mas deixo pra lá, imediatamente após a passagem da policia, ofensas por entre dentes são proferidas sobre as autoridades policiais. Por fim, é o Ronald que declara:
– Acabou o vinho, vamos pro Rancho!

 

Domingo, 7h

De frente a uma padaria fechada, nós aguardamos, o sono e a fome me incomodam, mas o nascer do sol me reanima um pouco. Ainda estou tenso pelo “passeio na feira”, que milagrosamente não trouxe maiores consequências. Até me divirto um pouco enquanto observo os outros três (Malemolente ficou pelo caminho) iniciarem uma bizarra roda de capoeira contra um orelhão (telefone público), mesmo que claramente nenhum deles seja realmente praticante dessa arte marcial e no máximo consigam se emporcalhar ainda mais no chão sujo ao som de palmas e da canção “Paranauê”. Transeuntes sisudos desferem olhares reprovadores, não os culpo, não faria diferente hoje.

 

Sábado 22h

O motorista, razoavelmente embriagado, toma uma estrada para a Cidade de Canas (eu acho), mas após poucos minutos é orientado por Dráuzio a parar no acostamento, árvores grandes nos cercam dos dois lados, saltamos do carro, ele nos conduz novamente por uma pequena trilha descendo no breu absoluto, todos continuam suas conversas normalmente, eu acho estranho e fico desconfiado, puxo meu surrado Nokia 2280 e lanço sua luz azul no caminho, até que sou repreendido por algum deles que me pede pra não ficar “dando pala” (chamando a atenção) com o celular. Meu estado de embriaguez se esvai nesse momento, me pergunto o que esses filhos da p*ta estão fazendo, temo pelos meus rins, por estar invadindo propriedade privada, ou coisa pior, ouço o barulho de água à frente, chegamos a uma espécie de casebre de madeira, com um deck voltado para o Rio Paraíba, tudo rústico, um rancho para pescadores, vazio por sorte, subimos no deck, nesse momento dois deles começam trabalhar em algo que não consigo distinguir no início, mas a luz da chama de um isqueiro e o cheiro característico posterior não me deixam dúvidas: maconha.

Nunca havia fumado, o cigarro passa de mão em mão, ele me é oferecido de forma quase displicente, mas percebo, mesmo no escuro, os olhos voltados pra mim, todos os conselhos de meus pais, de meus familiares, campanhas escolares e propagandas governamentais passam diante dos meus olhos, mas por outro lado, eu, por alguma razão me sinto tentado a dar esse passo, me integrar com aqueles desconhecidos, ser aceito e fazer parte daquele grupo. Olho para as estrelas, estas continuam a brilhar e o rio, a despeito dos meus conflitos internos, segue indiferente.

 

Domingo 0h

Finalmente, finalmente o carro para no estacionamento do maldito e abençoado Manguetown, chegamos, todos descem do carro, adrenalina a mil, a euforia toma conta de todos, pulamos abraçados, comemoramos, apesar de tudo estamos vivos, chegamos, sinto que experimentamos uma pequena amostra daquela irmandade nascida na guerra, por aqueles que lutaram juntos, sangraram juntos, olho o relógio, faz pouco mais de três horas que conheço esses caras, caio na real e a euforia passa, ao menos pra mim.

Olho para meus joelhos e pro meu tênis… barro, mato, torço para que não tenha esterco, os outros estão semelhantes, uns piores outros melhores, tentamos nos limpar usando aqueles papéis que são colocados sobre os tapetes dos carros recém lavados, não fica lá muito bom mas f*da-se, é uma balada, tudo escuro, luzes piscantes, fumaça, ninguém enxerga nada, certo? Errado, como eu descobri assim que passei pela revista na entrada, mas não ligamos, a sensação é de que podemos superar tudo nessa noite, logo voltamos a nos embriagar com cervejas, doses, batidas, a noite transcorre com muitas brincadeiras, risadas, um “te considero muito cara” aqui e ali, parecia que finalmente as coisas correriam bem… ledo engano.

 

Domingo 2h

Olho pro lugar novamente, uma chácara, à beira da estrada, recém convertida em balada, não está lotado, mas não está vazio, acho que talvez seja melhor assim, dado nosso estado físico e psicólogo, a decoração era predominantemente de bambu, rústica com outros elementos naturais, tochas, palmeiras e outras árvores, muito ar livre, alias, só o bar, o palco e uma pequena pista de dança eram cobertos num esquema meio hippie litorâneo, ainda que estivéssemos a 100 km da praia mais próxima. Acaba o show de reggae, música eletrônica na pista finalmente, me animo a dançar mas antes volto ao bar, peço mais uma caipiroska e enquanto aguardo, não me lembro exatamente como, mas começo a conversar animadamente com uma moça muito bonita! Vou chamar de Cora, tinha olhos verdes pelo que me lembro, na verdade, é só o que me lembro, mas era uma grande melhora naquela noite.

 

Domingo 1h

Álcool, muito, bem além do que deveríamos tomar, metade do meu grupo sai durante um tempo pro estacionamento, não pergunto e meio que não me importo com o porquê.

 

Domingo 4h

Nunca estive tão chapado na vida, meu colegas estão piores pelo que percebo, mas ninguém vomitando ou dando trabalho, só agitados, naquele estado em que tudo é engraçado. Mas um deles, acho que Malemolente, começa a encarar de forma insistente a casa que fica dentro do terreno. É pequena (acredito que seja uma casa de caseiro) e meio afastada do centro da balada, mas temos acesso ao seu exterior, ela é toda avarandada e uma mureta de mais ou menos um metro de altura separa essa varanda do resto do quintal, existe uma passagem nessa mureta, ou pelo menos existiu, mas pelo que percebo ela fora habilmente selada com tijolos de vidro com um tipo de iluminação colorida atrás, dando um efeito muito bonito, inclusive. E nessa hora o Tinhoso nos olha e nos lembra que a noite ainda não acabou…

Malemolente, sei lá por que c*ralhos, do nada, com toda calma, aponta e diz:

– Olha lá, é vidro… Vamos chutar?

Um diz “claro, vamo!”; outro “não, vai dar m*rda!”; e eu… bom, eu fico sóbrio, instantaneamente tenho a convicção mais ferrenha de que “vai dar ruim”, tenho vontade de gritar, sei lá, dar um tapa na cara dele e dizer: “seu filho da p*ta, m*rdeiro, a gente vai se f*der de novo, já não basta o que aconteceu?!?”

Mas, ao invés disso, quase inconscientemente, começo a andar pra trás, uns dez passos e o único som de protesto que emito nesse trajeto, é um claríssimo barulho reprobatório, provindo da sucção do meu canudo, anunciando o fim da minha bebida, franzo a testa também. Porém, nada disso foi suficiente pra convencê-los, duas duplas são formadas e tal qual um salto sincronizado, elas arrancam e chutam aquele vidro luminoso.

Do meu lado, escuto um desesperado: “não, não, faz isso não, Jão, ajuda aqui, molecada filha da p*ta!”

Um sujeito careca, que estava servindo bebidas no bar a bem pouco tempo atrás, parte pra cima de minha turba imbecil, uma mulher e um dos poucos seguranças faz o mesmo.
Nessa hora é tudo bem rápido, percebo que a tal parede de vidros era feita na verdade com garrafas pet cheias de água, então, não houve grande prejuízo financeiro, mas os anfitriões parecem não pensar assim. Tapas, socos, empurrões, uma “nuvem” de braços, pernas, socos e xingos se encaminha em pouco tempo pra saída. Eu me vejo então sozinho, o careca retorna para dentro, me encara de cima a baixo, acho que ele sabe que sou daquele grupo, mas como não corro ele me ignora, olho pro lado da pista, vejo Cora ao longe, dançando, olho para fora, meus “amigos”, minha carona, olho para as estrelas, estas continuam a brilhar.

 

Domingo 3h

Cora… a Cora é legal, ri muito das minhas piadas, mesmo não me ouvindo bem devido ao barulho da música, me apresenta ao seu grupo, todos universitários da FAENQUIL (universidade federal se não me engano) e dança, dança bem próxima, ainda que sem encostar, de um jeito meio desdenhoso, mas com aquele olhar maroto, um sorriso irônico, sempre voltada pra mim, concluo que ela esta me dando “condição” na gíria local da época, mas mesmo bêbado, mesmo acreditando haver reciprocidade ali, eu hesito.

Um amigo dela em dado momento se aproxima de mim e pergunta: “você é daqui de Lorena?”

Respondo negativamente.

– Então estuda onde? – continua o rapaz

– Cara, estudo não, estou só trabalhando aqui por enquanto – respondo.

– Hum… entendo, então, o sobrenome da Cora é Coquinha – me manda um olhar estranho.

– Ok… – respondo sem entender a relevância do sobrenome. Ele aguarda um pouco e percebendo que aquilo não me dizia nada, prossegue.

– Ela é prima da atriz Rainha Coquinha, da Globo, lembra? – não me lembrava e não entendi a relevância daquilo.

O sujeito então esfrega o polegar no indicador, sinal de dinheiro.

Eu realmente estava bêbado, não entendi nada e me distraí com outra coisa. Mais tarde, criei a teoria de que aquele cidadão, que a princípio parecia legal, com bastante sutileza me disse que eu não pertencia aquele grupo intelectualmente e que Cora estava fora do meu alcance financeiro e social, se foi isso mesmo, o cara era um belo exemplar de babaca.

Por outro lado, sabendo que minha timidez já me autossabotou diversas vezes na vida, mesmo sem essa interferência externa, minhas estatísticas românticas da época sugerem que eu não teria tentado nada a mais com Cora Coquinha.

 

Domingo 5h

Saio ileso para o estacionamento (foi mal, Cora), lá fora Malemolente é o mais transtornado, anda freneticamente de um lado para o outro, socando e chutando o ar, jurando sangue e vingança. Os outros três conversam com um homem mais velho, grande e forte, usa roupas largas, estilo hip-hop, encostado em um Chevette velho, segue o que me recordo do diálogo:

– Dono do Mundo, os cara expulsaram nóis na bicuda mano!

– Car*lho, deixa não! Vamos lá resolver?  responde Dono do Mundo, pega algo no porta luvas e já começa a fechar o carro para poder sair, mas antes pergunta.

-O que aconteceu exatamente para eles esculacharem vocês assim?

-Então, só chutamos uns vidros lá e os caras vieram na ignorância!

Dono do Mundo então, com o dedo em riste se imobiliza e diz.

-Espera, vandalismo?!? Vocês estão errados! – declara e continua. “Vandalismo não dá! Se fosse outra coisa, nós iríamos lá deitar todo mundo na porrada, mas vocês estão errados, melhor irem embora.”

Ronald e os outros dois começam a argumentar todos juntos, sem ninguém se fazer entender, até que são interrompidos por um grito ou talvez mais para um gemido, claramente de dor.

Malemolente, tomado pela fúria, não sei como e nem porquê, havia avançado contra uma cerca de arame farpado no escuro e estava todo debruçado, enroscado pela barriga, gemendo de dor. Alguns correm para ajudar.
Ronald me puxa pra um canto e confidencia que Malemolente e Panegírico haviam usado cocaína, adquirida com Dono do Mundo, em uma escapada para o estacionamento. Ou seja, o sujeito era amplamente contra qualquer tipo de vandalismo, mas não via qualquer problema com tráfico de entorpecentes. A natureza humana é mesmo fascinante. Embarcamos no carro, deixamos o Manguetown e as vinganças juradas para trás.

 

Sábado 23h

O carro arranca deixando aquele rancho as margens do Paraíba pra trás, finalmente rumo a festa. Atravessamos o centro, o convite aponta o endereço como estrada velha Lorena/Guaratinguetá, um lugar meio ermo, ao longe enxergamos holofotes marcando o local.

Todos estamos alterados, a música e as conversas ocorrem em um volume muito alto, mas não parecem atrapalhar a concentração do condutor, já que ela inexiste. Este olha pra trás o tempo todo, uma só mão no volante, rindo e conversando euforicamente, dirigir nem de longe é sua principal preocupação no momento.

As luzes se aproximam, ouvimos a música, estamos perto, alguém dentro do carro grita avisando que perdemos a entrada, subitamente Panegírico para no meio da estrada, engata a ré e faz uma manobra perigosa, tomando uma estrada estreita a direita. Simultaneamente notamos uma viatura da PM, que antes parecia estacionada e vazia no acostamento, acendendo os faróis e o Giroflex, a encarnação do desespero tomando vida.

– Vai logo, entra no estacionamento – ouve-se dentro do carro, quem sabe o próprio Quina De Mesa seja o responsável pelas palavras.

Panegírico dirige rápido pela via de terra, mas nenhum de nós encontra qualquer entrada pro estacionamento, olho para trás, vejo o Giroflex piscando ao longe. Estão nos seguindo, sem dúvida.
O som da música e os holofotes vão ficando pra trás, já a viatura se aproxima mais a cada curva, por um tempo, silêncio absoluto no carro, até que alguém começa a rir nervosamente e já emenda um “Hey, ho, let’s go!”, todos começam a cantar juntos.

Eu recebo a brisa noturna no rosto, entorpecido pela adrenalina e por todas as outras substâncias que correm em minhas veias, tudo parece surreal, sorrio e me junto à cantoria. Mas em dado momento, olho para trás e a realidade me acerta como um soco no estômago, um soco que em bem pouco tempo pode vir a se tornar literal. Sóbrio novamente, confesso, estou me cagando de medo, quase literalmente também, a viatura está muito perto e tudo que se possa imaginar de ruim me vem à mente, tenho certeza de que estamos decididamente f*didos, muito f*didos.

Não sei quanto tempo demorou a fuga, pareceram horas, mas devem ter sido minutos. A viatura quase se choca com nossa traseira, sirene tocando alucinadamente agora, o motorista insiste mais um pouco, mas é convencido pelos outros a parar.

Descemos todos do carro num jorro de justificativas e gestos, os faróis e o holofote da viatura nos cegam, não sabemos quantos policiais são e nem onde estão exatamente, subitamente ouvimos: “de costas, mãos na cabeça!” – soa firme, autoritário.

Mais alguns protestos da parte de meus amigos, mas vão se virando, penso ter ouvido o barulho de um gatilho sendo puxado, mas não tenho certeza.

– Deitem no chão, todo mundo, agora! – prossegue a autoridade.

O resmungos retornam efusivamente, olho por cima dos ombros, os outros, sobretudo o Ronald, descem as mãos da cabeça e começam a se virar e gesticular em protestos sobre roupas sujas e tal.
O som do primeiro tiro rasga a noite, é absurdo no silêncio daquele lugar, me jogo no chão, imediatamente, rezo, não sei se os demais fazem o mesmo. Mais tiros…

– Acertei um! Acertei um! – ouço um policial gritar, não ouso levantar a cabeça pra conferir.

Daí para frente, parece uma eternidade novamente, hoje, sei que um deles revistou um por um de nós. Em minha vez, ouço a respiração do policial sobre mim enquanto apalpa meus bolsos, levanta minha camisa, sinto o cheiro do mato no local onde eu estou deitado, percebo o peso do coturno esmagando a lama ao lado da minha cabeça, aguardo tenso, me imagino levando um chute daquele calçado duro, nas costelas, no saco, na cabeça, quem sabe mais onde.
Minha mente se depara com as piores previsões possíveis, prevejo que se eles realmente acertaram alguém, deixariam os outros voltarem para Lorena? Testemunhas oculares de uma atrocidade policial? Duvido muito, imagino que se alguém foi realmente atingido, nós ali, indefesos a 10 km do asfalto, sem testemunhas ou câmeras, não veremos a luz do dia.

E eu permaneço passivo no chão, me acalmo, penso na minha vida, minha família… aceito a morte. Percebo escrevendo agora que ainda hoje, tantos anos depois, esse sentimento de impotência e aceitação do fim me afetam de um jeito muito ruim.

Bom, pro meu alívio momentâneo, não sou agredido ali, mas nos mandam permanecer deitados por mais um tempo. Ao longe escutamos o som de outro carro se aproximando… reforços? Civis locais?
Era reforços mesmo pelo que percebemos. Em tom baixo parece haver uma discussão rápida ente eles sobre o que fazer, tensão no ar.

– Levantem-se! Quem é o condutor! Cadê a carteira de motorista?

Panegírico não é habilitado.

– Onde vocês estavam indo? Por que fugiram?

– Nos assustamos, senhor! Íamos a uma festa, os convites estão no porta luvas. – um dos policiais localiza e agora vejo, são realmente duas viaturas e quatro policiais.

O homem respira fundo, pensa um pouco e diz: “eu vou aliviar vocês dessa vez, mas esse rapaz não pode conduzir, quem aqui é habilitado?”

Eu era, mas, por diversos motivos, não sabia realmente dirigir. Porém, dada a situação, estava quase intervindo quando todos gritam pelo Ronald, nesse momento, me dou conta que não vejo o Ronald, gelo no estômago.

– Cadê o Ronald? Pergunta o policial olhando a nossa volta.

– Ronald é esse aqui? Intervém outro militar, apontado pra um corpo jogado dentro do mato alto na beira da estrada, eu gelo, desencarno, pernas bambas, suor frio, tudo junto.

Ronald? Ronald? Levanta car*lho! – com leves chutes chama o policial, eu não entendo nada.

Ele perde a paciência, agarra a toca da blusa junto com o cabelo do Ronald, escuto o grito de protesto enquanto ele é colocado de pé, recebendo um merecido esporro.

Eu fico aliviado e puto da vida, os policiais podiam estar nos esculachando, mas estavam dispostos a nos liberar e esse filho da puta fazendo graça, abusando da sorte, que m*rda!

Aguardo ansioso, Ronald mostra a habilitação, mas sua aparência é terrível, ele está com um sorriso narcótico na cara, parece o Coringa, fico aguardando o policial lhe aplicar ao menos um tapa, quase torço na verdade.
Mas contra todo o meu pessimismo, nada acontece, o policiais entram em suas respectivas viaturas e simplesmente partem.

Mal fazem a curva e meu grupo explode em alegria, gritos de “p*rra, c*ralho”, xingos e ofensas contra os policiais, entramos no carro, o próprio Panegírico dirige (Ronald está sem a menor condição), voltamos pela estrada, finalmente rumo ao Manguetown.

 

Segunda 14h

O próximo turno de frentistas assume o posto, eu e o Ronald pegamos nossas bicicletas, ele, que não havia feito mais nenhum comentário sobre aquele rolê, inesperadamente dispara: “então, depois que deixamos você, batemos o carro!”

– Car*lho, como? – pergunto atônito.

– Panegírico tava muito loco, fez uma curva a milhão e bateu em um Palio parado. O Gol, com para-choque de ferro, quebrou pouco, mas o Palio ficou f*dido, a rua estava vazia, fugimos empurrando o carro que não queria mais pegar.

– O Panegírico disse pro irmão que tinha batido em um muro, o irmão dele ficou puto, mas como não tinha tantos danos assim, até que se acalmou rápido, o problema é que alguém viu e nos caguetou pro dono do Palio, que é truta do irmão do Panegírico e foi lá, na porta deles, cobrar satisfação. Os irmãos saíram no braço, não estão mais se falando, tá foda!
Escutei perplexo, já imaginando uma vaquinha ou algo do tipo pra ajudar a resolver a situação, me despedi do Ronald e dos outros frentistas e fui almoçar.

Nunca mais saí com esses caras e não tive lá muitas noticias. Meses depois, o posto cumpriu nosso acordo e finalmente conquistei primeiro carro, uma Pick-up Corsa, só cabiam dois, o que diminuía muito o potencial de fazer m*rda, não que elas não tenham acontecido, mas nunca mais nesse volume e intensidade. Graças a Deus!

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