“Duas músicas por álbum” foi um jeito que eu criei para apresentar discografias das bandas que eu gosto para pessoas que eu gosto. Embora nem de longe duas músicas representem toda uma fase de um artista, quando você coloca toda a coleção, de duas em duas, dá pra ter uma boa idéia da história toda que aquele artista percorreu.

É bem divertido de fazer, embora as vezes seja um pouco doloroso conseguir só duas amostras de um álbum muito bom, ou extrair as duas melhorzinhas de um álbum muito ruim. Mas é isso que torna essas playlists legais quando você está revisitando a obra de um artista que você já conhece.

Agora falando sobre os Engenheiros: quando eu era um jovem adolescente e comecei a gostar de rock, gostar de Engenheiros, Legião, Capital Inicial, Titãs, era normal. É normal também que com o tempo as coisas fiquem datadas e a gente faça piada disso. Mas o que eu acho meio anormal é que essas piadas acabem se transformando em crítica corrente. Uma coisa é achar algo engraçado ou pitoresco em uma música da Legião como a dúbia frase “aquele gosto amargo do seu corpo ficou na minha boca por mais tempo”. Outra coisa é você começar a achar que a música ou toda a obra da banda é ruim por causa disso. Acho que a internet e seu binarismo extremo “tudo é terrível ou tudo é maravilhoso” acabou causando essa confusão.

Acho que isso é uma coisa cultural nossa. No exterior se faz muita piada sobre os anos 80, mas ninguém questiona o talento de artistas importantes (e já meio datados) da época como Hall & Oates, Billy Joel, Huey Lewis, Cindy Lauper, etc.

E isso acontece muito com os Engenheiros do Hawaii. Uma banda excelente (embora ela tenha deixado de ser uma banda com o tempo, só preservando o nome), que acabou ficando mais conhecida pela caricatura que se faz dela.

Humberto Gessinger tem um talento inigualável: fazer música, métrica, poesia, rima, verso, melodia, usando a língua portuguesa é jogar no hard. Já reparou como em inglês as palavras são quase sempre proparoxítonas ou tem uma ou duas sílabas? O som é vocálico. Por isso que dá pra rimar “road” com “know” e fica ótimo. No pt-br as palavras são silábicas, polissilábicas, consonantais, duras. Tudo tem som e nada rima. E o cara fez uns 20 discos já, sem fórmulas, sem ficar repetindo, usando todas as ferramentas que a língua dá, aliterações, duplos sentidos, etc. Ninguém da geração dele era tão bom nisso. Embora em alguns momentos seja mesmo caricato.

Passando pela discografia, é legal perceber o regionalismo claro da banda, no sotaque e na sonoridade, sendo substituído aos poucos por uma linguagem mais mainstream e menos inocente. Compara “Toda Forma de Poder” e “Segurança” com “Terra de Gigantes” (ainda do segundo disco, quase só de hits). Parece uma banda já 10 anos mais velha.

Eu acabei trapaceando um pouco e colocando “Longe Demais das Capitais” e “Nove Zero Cinco Um”, do primeiro disco, como escolhas de alguns álbuns Ao Vivo (a banda abusou um pouquinho desse recurso pra cumprir contratos). Essas duas músicas são claramente regionais e inocentes. A segunda chega a ter um solo de guitarra que imita a musiquinha da chamada a cobrar.

A música que eu mais gosto é “Ando Só”, na versão semi-acústica do álbum “Filmes de Guerra, Canções de Amor” (mais um ao vivo). O projeto na época parecia meio pretensioso, mas olhando agora deu pra ver que eles de fato conseguiram dar uma abordagem própria para toda a moda dos discos acústicos.

“A Montanha” é minha segunda favorita da lista. É claramente a mais pop e mais bem produzida de todas. Acho que é um exemplo de uma banda achando um equilíbrio entre todas as suas características e colocando numa canção pop de sucesso, já tão longe na carreira.

Eu mantive só as músicas da discografia “oficial” da “banda”, porque a partir de um certo momento fica meio confuso o que é a banda, o que é a carreira solo e o que é simplesmente o registro de shows do cara. Tem coisa bem boa no álbum “Humberto Gessinger Trio”, mas achei que fazia sentido deixar de fora.

Eu acho engraçadas as piadas com a banda e normalmente vou na onda. Mas, sério, ouça essa playlist de coração aberto. Curta os exageros vocais e baixísticos do cara. Perceba o sempre ótimo trabalho de guitarra dos guitarristas da banda. E perceba como os anos 80 e 90 refletiram de um jeito tão peculiar nessa banda e nessas bandas 🙂

(Anotação para o futuro: copiar os quatro parágrafos desse texto quando for fazer a playlist do Oswaldo Montenegro)